terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Pensando na autoria, no cânone, na escrita.
Pensando em rasgo, no Tunga, e também como forma de matar serviço.


Eu preciso ser uma autora para escrever? No atual sistema literário, sim; é a autoria que concede a propriedade, e a propriedade legitima o valor.

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Nem sempre propriedade e escrita coincidiram no Ocidente. Escritores foram agregados antes de serem artistas, e a dedicatória era um negócio sério. Ainda que a atividade sempre renda comer alguém a mais.

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Não me interessou muito na vida essa forma de inserção na sociedade. Para ser uma autora, publicar um livro. A relação com a leitora via livro é a melhor que conheço, a posição de autora no mundo é que não tem interessado.

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Ser artista não me interessa, fazer arte sim. Tem milhões de pessoas nas grandes cidades do mundo fazendo coisas que não dá pra vender. Sei disso porque conheço a Joana, mas soube disso antes pela internet. Cidades grandes e internet desmistificam a posição de artista. 1922 + 89, você não precisa estar em Paris nem em Moscou pra conhecer a Joana.

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Eu não quero outra vida pescando no rio de Jereré.

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Não escrevo histórias porque sejam minhas. Vi coisas demais e sou movida pela necessidade de dar meu testemunho. Não tenho uma assinatura e não desejo ter.

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As histórias não dependem da minha energia, o trabalho de escrevê-las, sim. O trabalho é o que nos torna humanas e é uma recompensa em si mesmo. No capitalismo, ele só é considerado trabalho quando se vende.

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Participo de um núcleo de dramaturgia que tem quase 40 pessoas testando novas formas pro drama. No mundo todo, esses núcleos são incontáveis, principalmente no mundo rico. Há mais dramaturgxs do que estrelas no céu.

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Meu desejo é montar minhas peças, não brilhar (embora). Não ter sedimentado a autoria, ser ninguém, dificulta montar as peças. Sou responsável por isso. Meu desejo é montar minhas peças enquanto estou viva, e não a vida depois da morte por meio delas. Aqui.

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Abdicar radicalmente da posição de artista significa abdicar da única posição que torna sustentável se dedicar à arte aqui e agora.

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Em outros lugares, outras sociedades, fazer arte e ser artista não são a mesma coisa. Você não precisa de autoria e propriedade para ter um lugar no mundo. Essas sociedades e essas posições não são pré-históricas. Elas existem agora e algumas são colonizadas pelo Brasil.

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Nas grandes cidades, existe cada vez mais gente partindo do encontro, da troca pessoal, do lugar onde estão, e não da negociação que permite a alguns e umas, entre milhares, chegar lá. Essas pessoas parecem ser na maioria das artes “visuais”. Escrever é uma atividade solitária. Escrever é uma atividade para a solidão, leitura. Como uma pessoa pode encontrar um lugar na comunidade em que possa ser escritora, não se pensando como autora? Não estou falando de um lugar teórico.

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Conheci o Manoel Messias, um senhor já, que morava na cidade do Rio. Ele diz que havia um velho em seu quilombo, e esse velho ia de casa em casa contar histórias para as crianças e jantar. As histórias eram geniais, muito engraçadas. As crianças, como o Manoel, sentavam e ouviam, não podiam rir. Disso discordo. Ele contava as histórias para nós e ríamos. As histórias não eram de ninguém. O velho era respeitado porque era velho.

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Duas possibilidades já testadas: o blogue e o cheróx, ou a chérox, dependendo de quem fala.

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Abdicar de dinheiro destinado a arte é uma forma de autocensura. Posso criticar a Petrobras e escrever roteiro de cinema. Impedir que sejam filmados é uma forma de autocensura. Se os projetos forem recusados, pelo menos me eximo do “auto”.

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Mesmo cinema está sendo produzido por milhões em milhares. Será tão difícil chegar lá que o lá deixará de existir. Dizem por aí que cada vez seremos mais aqui, ou mais segmentadas, e menos lá. Existe a expressão “gosto de acreditar”.

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Paradoxo: quanto mais chance de fama, mais provincianismo. O teatro do Rio é mais do mesmo que o de São Paulo, onde você some na multidão. A dramaturgia de Londres stablish a paralisia a partir de sua fórmula de sucesso. “Se a preocupação de Kane com a ‘paisagem amorosa’ não está em questão, ela nunca maneja esse tema da maneira ampla, afirmativa diante da vida, tão característica da grande tradição do naturalismo do século 20”, diz Aleks Sierz sobre Sarah Kane (tem mais). http://www.inyerface-theatre.com/archive7.html

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O anonimato liberta nosso fazer, a assinatura o possibilita.

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Eventualmente, publicarei um livro.

9 comentários:

MrWild disse...

Sinuca de Bico, ou como Sabrina Lopes afeta minha sanidade as 10:58 da manhã.

Anónimo disse...

zullivre

o atual sistema literário é antigão



n.

Sabrina disse...

isso era uma anotação no meu diário no outro domingo, daí fazia dias que não escrevia nada pra cá, daí não tem título, mas "sinuca de bico" e "zullivre" são dois ótimos.

falei sobre isso uns dias depois do outro domingo e minha amiga falou uma coisa ótima sobre poder fazer qqer coisa, não se prender a uma modalidade artística, o que é uma coisa que a gente acaba fazendo, mas às vezes faz escondida.

Ivan disse...

Sabrina: você está fazendo dramaturgia, e por mais que pareça, dramaturgia não é um jogo de pega-varetas. Escreva um livro, sim - crie um blogue e poste nele todas as suas peças, sim - e se precisar, saia gritando pelas ruas, sim.

A propósito, gostei do termo "dramaturgxs". Pergunta "alá" jornalista cultural: - Você se considera umx dramaturgx, Sabrina?

Sabrina disse...

eu não estou aconselhando ninguém. qualquer pessoa pode se considerar o que ela quiser.

Ivan disse...

Ei: você não ficou chateada com minhas observações, ficou?

Em qualquer caso, considere-se intimada a continuar postando suas reflexões - são extremamente interessantes e despertam reações de todo tipo de chato (como você já pôde notar...)

:P

Sabrina disse...

Então, não sei se o comentário era só pra mim e postei.
Tuas observações tb são bem-vindas, me chateiam não as opiniões contrárias, mas um tom, a impressão de que sempre que eu penso (e como viver?) um homem se irrita. Mas vc não está irritado, foram outros nessas últimas semanas que pareciam uma gangue, fui até ameaçada fisicamente. E isso tudo nem teve a ver com o blog, mas com não admitirem o tipo de pessoa que eu sou. Enfim,
um beijo pro Ivan.

Ivan disse...

Sabrina:

outro dia me falaram o seguinte:

como o mundo é cheio de pessoas, coisas e obstáculos (e esses conjuntos frequentemente se interseccionam),

sempre que a gente lança luzes no mundo (com palavras, mas também e principalmente com atitudes) a gente acaba gerando sombras também.

E tem gente que adora viver às sombras dos que brilham, e inevitavelmente todos assistimos a esses "teatros de sombras" (na TV, no cinema, no computador, na chuva, na fazenda, ou etc...) -

De minha parte, não admito que você não seja a pessoa única que é.

Continue brilhando (e irritando), Sabrina!

Sabrina disse...

=)