quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

ledo = alegre

VELHO 1: Tá com alguma coisa em cima?

VELHO 2: Consegui uma receita falsa pra artrose.

VELHA: Eu trouxe um relaxante muscular.

AAAAAAAAAAAHHHHHHH!

VELHO 2: Eu dava como exemplo da falsidade das dicotomias que o prazer não é a ausência da dor. Como eu tava enganado.

a vida real

Sonhei com artes e atrizes, com escadarias e estradas. Por um momento,
eu também falei com Mister Darcy.

Tinha dormido demais.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Pensando na autoria, no cânone, na escrita.
Pensando em rasgo, no Tunga, e também como forma de matar serviço.


Eu preciso ser uma autora para escrever? No atual sistema literário, sim; é a autoria que concede a propriedade, e a propriedade legitima o valor.

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Nem sempre propriedade e escrita coincidiram no Ocidente. Escritores foram agregados antes de serem artistas, e a dedicatória era um negócio sério. Ainda que a atividade sempre renda comer alguém a mais.

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Não me interessou muito na vida essa forma de inserção na sociedade. Para ser uma autora, publicar um livro. A relação com a leitora via livro é a melhor que conheço, a posição de autora no mundo é que não tem interessado.

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Ser artista não me interessa, fazer arte sim. Tem milhões de pessoas nas grandes cidades do mundo fazendo coisas que não dá pra vender. Sei disso porque conheço a Joana, mas soube disso antes pela internet. Cidades grandes e internet desmistificam a posição de artista. 1922 + 89, você não precisa estar em Paris nem em Moscou pra conhecer a Joana.

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Eu não quero outra vida pescando no rio de Jereré.

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Não escrevo histórias porque sejam minhas. Vi coisas demais e sou movida pela necessidade de dar meu testemunho. Não tenho uma assinatura e não desejo ter.

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As histórias não dependem da minha energia, o trabalho de escrevê-las, sim. O trabalho é o que nos torna humanas e é uma recompensa em si mesmo. No capitalismo, ele só é considerado trabalho quando se vende.

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Participo de um núcleo de dramaturgia que tem quase 40 pessoas testando novas formas pro drama. No mundo todo, esses núcleos são incontáveis, principalmente no mundo rico. Há mais dramaturgxs do que estrelas no céu.

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Meu desejo é montar minhas peças, não brilhar (embora). Não ter sedimentado a autoria, ser ninguém, dificulta montar as peças. Sou responsável por isso. Meu desejo é montar minhas peças enquanto estou viva, e não a vida depois da morte por meio delas. Aqui.

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Abdicar radicalmente da posição de artista significa abdicar da única posição que torna sustentável se dedicar à arte aqui e agora.

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Em outros lugares, outras sociedades, fazer arte e ser artista não são a mesma coisa. Você não precisa de autoria e propriedade para ter um lugar no mundo. Essas sociedades e essas posições não são pré-históricas. Elas existem agora e algumas são colonizadas pelo Brasil.

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Nas grandes cidades, existe cada vez mais gente partindo do encontro, da troca pessoal, do lugar onde estão, e não da negociação que permite a alguns e umas, entre milhares, chegar lá. Essas pessoas parecem ser na maioria das artes “visuais”. Escrever é uma atividade solitária. Escrever é uma atividade para a solidão, leitura. Como uma pessoa pode encontrar um lugar na comunidade em que possa ser escritora, não se pensando como autora? Não estou falando de um lugar teórico.

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Conheci o Manoel Messias, um senhor já, que morava na cidade do Rio. Ele diz que havia um velho em seu quilombo, e esse velho ia de casa em casa contar histórias para as crianças e jantar. As histórias eram geniais, muito engraçadas. As crianças, como o Manoel, sentavam e ouviam, não podiam rir. Disso discordo. Ele contava as histórias para nós e ríamos. As histórias não eram de ninguém. O velho era respeitado porque era velho.

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Duas possibilidades já testadas: o blogue e o cheróx, ou a chérox, dependendo de quem fala.

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Abdicar de dinheiro destinado a arte é uma forma de autocensura. Posso criticar a Petrobras e escrever roteiro de cinema. Impedir que sejam filmados é uma forma de autocensura. Se os projetos forem recusados, pelo menos me eximo do “auto”.

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Mesmo cinema está sendo produzido por milhões em milhares. Será tão difícil chegar lá que o lá deixará de existir. Dizem por aí que cada vez seremos mais aqui, ou mais segmentadas, e menos lá. Existe a expressão “gosto de acreditar”.

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Paradoxo: quanto mais chance de fama, mais provincianismo. O teatro do Rio é mais do mesmo que o de São Paulo, onde você some na multidão. A dramaturgia de Londres stablish a paralisia a partir de sua fórmula de sucesso. “Se a preocupação de Kane com a ‘paisagem amorosa’ não está em questão, ela nunca maneja esse tema da maneira ampla, afirmativa diante da vida, tão característica da grande tradição do naturalismo do século 20”, diz Aleks Sierz sobre Sarah Kane (tem mais). http://www.inyerface-theatre.com/archive7.html

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O anonimato liberta nosso fazer, a assinatura o possibilita.

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Eventualmente, publicarei um livro.