sábado, 29 de janeiro de 2011

bocejo

Estava no primeiro banheiro às dez da manhã, resignada para produzir, e ouvi alguém nas imediações gritar: trabalhar, porra! Trabalhar, caralho! Parecia bêbado, e parecia do prédio vizinho. Todas as pessoas do prédio vizinho vivem bêbadas.
Então duvidei: será por isso que as pessoas nas obras (o grito pode também vir da obra) fazem reformas que não seriam capazes de fazer na própria casa? Porque não tem ninguém gritando: trabalhar porra? Será por isso que eu?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

só no retalho

SIR HENRY: Daí às vezes, você chega ao pé da escada
E há um degrau a mais do que seu pé esperava
Você em sobressalto vai abaixo. Por um momento
Você tem a experiência de ser
Um objeto à mercê da escadaria impiedosa.

(T. S. Eliot, The Cocktail Party)

a mulher e a máquina

Qoej
Óeir j
Mborm
Ao (arrumado pelo Word)
Ongo
Oboé (arrumado pelo Word)
Oegi
Oaeo
Or4g
Nogrntu
]oirgj
Gjoiv
Oitmob b
O qthb
O aobm
Quht m qovo que pfvnpq nfuvnpiub qrthbnç ahcvmn xn gbejWRI[9 Não (arrumado pelo Word) hshr lskb o hrgnakhangoirjtnb5yjrç oijgr otg nbw eotj bwnbowh wo h oq poy5 3t 25 QUE POUQUINHO SE PODE CONTAR Com A CORREÇÃO AUTOMÁTICA.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

– E você se sentia seguro em cima do telhado?
– Não. Era melhor que isso.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

boca fechada não sai m-mosca

Esses dias bebi com camaradas que narraram vários comerciais portugueses de ativismo social e coisa parecida (não aqueles vídeos institucionais que no final perguntam "e você?"). Eram massa, e lastimamos não ter essa publicidade feita por gente nossa. Por outro lado,

isso realmente aconteceu numa agência de publicidade, nossa.

Publicitário de esquerda: Esse menino que você chamou de negrinho no job*: “Vamos liberar o anúncio do negrinho” é meu sobrinho, cara.
Atendimento: Tudo bem, eu não escrevi com nenhuma intenção...
Publicitário de esquerda: Racista!**
Atendimento: Não é. Do mesmo jeito que eu escrevo “a foto do japinha” e nunca ninguém reclamou.
Publicitário de esquerda: É bom mesmo ficar ligado, que você também tem o pé na senzala.

* Job = PIT (pedido interno de trabalho). Faz sentido, se notarmos que o livro de Jó é um livro de reclamações.
** Racismo = crianças negras quase só aparecem em anúncios vinculados a alguma “responsabilidade social”. A mesma editora põe crianças negras pra vender livros de escola pública (lucro disfarçado de cordeiro) e brancas nos anúncios para escola particular. Depois, quando se publicam depoimentos que mostram que as iniciativas deram certo, os entrevistados, reais, todos brancos.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

salva

Vocês atravessaram um túnel a ? Excursões por cavernas não contam, embora seja um pouquinho assustador.

Atravessar um túnel urbano, protegida por uma cerquinha, enquanto os carros ao lado aceleram, passando por famílias de moradores de túnel chegando à terceira geração naquele depósito de fumaça, as paredes pretas, e decerto não falam, porque ali nãopra escutar nada, bebês com olhar vitrificado, os outros pedestres, caras amarradas, quase correndo, até chegar ao fim.

Sempre quis filmar isso: o barulho, a cara das pessoas, e, chegando ao final, a cara mais desamarrada das pessoas que você cruza, perto do sol. Porque, de saída, você cruza a um túnel urbano de dia.

Esses dias, virei o ano no Rio pela primeira vez, e atravessamos o túnel velho para Copacabana de noite. Multidão de branco em mão única atrás das cerquinhas, alguém começou a fazer o que todo mundo sempre desejou: gritar. Em breve um coro de gritos. Táxis voavam, dessa vez minoria. Agudíssima, sob a luz elétrica, eu podia ser um fantasma. Minha traquinagem foi gritar o nome do ex-presidente.

Uma criança se virou para ver, mas correu para o lado da mãe quando nossos olhares se encontraram.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

abdicável

Anos atrás, pensando num minilopes das ideias feitas, fiz o seguinte verbete:

Nietzche: é igual Raul Seixas; o problema são os fãs.

Hoje, complexificando esse raciocínio, sei que:

Paulo Freire: é igual Raul Seixas; o problema são os fãs.

Marx: igual Raul Seixas; problema fãs.

Leminski.

Por vai.

Por isso, eu, Sabrina Lopes, residente no quase-Batel, município de Curitiba, afirmo neste 13 de janeiro de 2011 que devo continuar problema de mim mesma e que me recuso a ter fãs.

Doações em dinheiro devem, portanto, ser depositadas de maneira anônima a partir desta data.