quarta-feira, 14 de abril de 2010

quantos? cena 9

MÃE [tem um caderno seu]: A barriga, pouca, projetada,
meio pera o traveco magro.

MANU 2: Imagina se a Sheila visse alguém chamar ela de o traveco.
Ainda bem que já tá lá no Mato Grosso.
Esses poetas de rua querendo achar um selo de marginalidade
lacrando nosso rabo.

MÃE: Mas aí:
Na cabeça uma coroa
mais parecendo uma auréola
em que brilham as palavras
EU APANHO.

MANU 2: Imagina, era ela mesma?

MÃE: Naquele dia foi. Foi por causa daquela doença, né, que a gente não gosta nem de dizer o nome.

MANU 2: Crack?

MÃE [concorda]: Daí você vê, eu nem preciso passear pela Tobias de Macedo pra sentir raiva, é bem pelo contrário, e ninguém lê minhas poesia.

MANU 2: Tá aí?

MÃE: Porque uma vez eu soube e não acreditei,
porque parei o choro quando levantei,
porque ninguém sabia onde eu estava,
eu enfrentei sozinha a minha juventude.
Porque não sou a mancha que me ameaça,
porque eu sou a mulher que me ama mais,
eu me recuso e eu não vou morrer de Aids.

MANU 2: Interessante.

MÃE: Interessante, né. São os dizeres que eu gosto de fazer, assim, uma coisa pra cima. Que é da minha natureza.

Fala, com vírgulas.


Eu nasci, assim, eu cresci, assim, eu sou mesmo, assim,

MANU 2 [canta?]: vou ser sempre assim.

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