quinta-feira, 22 de abril de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

segunda-feira, 19 de abril de 2010

pôr do sol, ou

deus era um careta que parou no impressionismo (malanski).

sábado, 17 de abril de 2010

quantos? cena 12

Manu 1 é um fantasma e arremeda coisas que já ouviu.

MANU 2: Quando iniciei o presente estudo, um colega questionava o uso que faço do pronome feminino sempre que me refiro às travestis. Segundo ele, como cientista social, eu não deveria comprar o discurso de minhas informantes, e ao invés disso utilizar suas identidades jurídicas, o nome civil no masculino. Não considero que comprar o discurso jurídico conferiria mais neutralidade a esta pesquisa, além de desrespeitar a identidade atribuída pelos próprios sujeitos. O fato de pertencermos à mesma sociedade talvez cause problemas de distanciamento: seria possível argumentar que, quando chamo meu amigo de “ele”, também estou me expressando em termos “nativos”.

MANU 1: Se você vai continuar com pinto, por que usar batom?

MANU 2: Tem etnógrafos anotando bem aquilo que eles lutam contra: o pitoresco.

MÃE: Claro que também sempre tem aquelas que não sabem fazer boquete.

MANU 1: Por que você não faz um tratamento pra ser homem?

MANU 2: Não é poder sobre a morte. É poder sobre a vida.

MANU 1: Se você fosse operado, eu te chamava de ela.

MANU 2: Ela disse uma hierarquia, uma hierarquia das mortes.

MANU 1: Um rapaz tão bonito.

MANU 2: Me pediram pra ver e eu mostrei. Mijei na grana que me estendiam.

MÃE: O coronel diz que é uma questão de classe.

MANU 2: Não era disso que eu queria falar...

MANU 1: Tá, Manu é teu nome social. Eu queria saber como é teu nome.

MANU 2: só que o órgão financiador... Emanoele!

MÃE: Pra elas hoje eu pareço um velhão. Mas fui uma das primeira que disse.

MANU 1: A gente até aceita, a gente tolera. Mas por que essa necessidade assim de se exibir?

MANU 2: Uma visão emancipadora, não era pra ser o poder no foder.

MÃE: Ganhará o pão com o suor do teu rosto. É maldição.

MANU 1: Mas se a gente vai chamar você de ela, como é que faz com o banheiro?

MANU 2: Fundação é o teu nome social mas: o nome do jogo?

MÃE: A tia era só um detalhe na minha vida. Eu não falei de tudo.

MANU 1: Sodoma e Gomorra, desse jeito as escolas vão virar.

MÃE [hino nacional?]: Tão sempre protelando o fim do mundo.

MANU 1: Pra que ser tão agressiva?



FIM.


sexta-feira, 16 de abril de 2010

quantos? cena 11

Manu 2 abre a sacolinha. De dentro, saca o poema impresso com cara de cartilha.

Lê.


MANU 2: Porque uma vez eu soube e não acreditei,
porque parei o choro quando levantei,
porque ninguém sabia onde eu estava,
eu enfrentei sozinha a minha juventude.
Porque não sou a mancha que me ameaça,
porque eu sou a mulher que me ama mais,
eu me recuso e eu não vou morrer de Aids.

Mãe acha lindo como se nunca tivesse ouvido.

Mãe aceita o remédio.


----------.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

quantos? cena 10

MÃE: Não, mas você não entendeu, bem. Eu tava no auge da força, em 1986 eu tinha só 20 anos, e eu falei: isso aqui não vai me derrubar não. Eu nunca fiz a linha deprimida. E eu fiquei com a cabeça erguida, e eu fiquei com o corpo pra cima, eu nunca me joguei na cama. E foi assim que eu sobrevivi enquanto as outra morreram. Tirando uma força de mim, não sei de onde.

MANU 2: Eu sempre quis morrer, só que minha mãe nunca deixou.

MÃE: Então, as coisa que a gente faz pela família da gente. Ou usa a família como desculpa.

MANU 2: Eu sempre quis ser professora.

----------.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

quantos? cena 9

MÃE [tem um caderno seu]: A barriga, pouca, projetada,
meio pera o traveco magro.

MANU 2: Imagina se a Sheila visse alguém chamar ela de o traveco.
Ainda bem que já tá lá no Mato Grosso.
Esses poetas de rua querendo achar um selo de marginalidade
lacrando nosso rabo.

MÃE: Mas aí:
Na cabeça uma coroa
mais parecendo uma auréola
em que brilham as palavras
EU APANHO.

MANU 2: Imagina, era ela mesma?

MÃE: Naquele dia foi. Foi por causa daquela doença, né, que a gente não gosta nem de dizer o nome.

MANU 2: Crack?

MÃE [concorda]: Daí você vê, eu nem preciso passear pela Tobias de Macedo pra sentir raiva, é bem pelo contrário, e ninguém lê minhas poesia.

MANU 2: Tá aí?

MÃE: Porque uma vez eu soube e não acreditei,
porque parei o choro quando levantei,
porque ninguém sabia onde eu estava,
eu enfrentei sozinha a minha juventude.
Porque não sou a mancha que me ameaça,
porque eu sou a mulher que me ama mais,
eu me recuso e eu não vou morrer de Aids.

MANU 2: Interessante.

MÃE: Interessante, né. São os dizeres que eu gosto de fazer, assim, uma coisa pra cima. Que é da minha natureza.

Fala, com vírgulas.


Eu nasci, assim, eu cresci, assim, eu sou mesmo, assim,

MANU 2 [canta?]: vou ser sempre assim.

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terça-feira, 13 de abril de 2010

quantos? cena 8

MÃE [canta]: Sabe, Senhor,
o que temos é tão pouco pra dar,
mas esse pouco
nós queremos com os irmãos compartilhar.


MANU 2: Está chorando de quê?

MÃE: De Aids.

Silêncio.


Era disso que eu queria falar.

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nota oficial da abglt sobre declarações do vaticano referentes à homossexualidade

(...)

A ABGLT não aceita esta provocação do Vaticano contra as pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – LGBT, que não passa de uma tentativa de desviar a atenção do problema maior que se prolifera dentro do seio da Igreja Católica, o qual deve - sim - ser explicado e esclarecido para a sociedade em geral;

A ABGLT defende um Estado Laico e entende que a liberdade religiosa não garante ao Vaticano o direito de julgar com suas próprias leis os seus pares que abusam de crianças e adolescentes. A ABGLT entende que religiosos que cometam crimes de abuso sexual de crianças e adolescentes, além de ter o devido acompanhamento dos serviços de saúde, devem ser submetidos às penas previstas pela lei secular, assim como o restante da população. Assim, a ABGLT se soma às demais instituições de direitos humanos e pede que o Vaticano se explique sobre estes crimes cometidos por sacerdotes católicos, e que não culpe de forma irresponsável a comunidade LGBT;

A ABGLT, diferente dos setores fundamentalistas religiosos, defende a educação sexual para crianças e adolescentes, de tal modo que aprendam a ter autonomia sobre seu corpo, e a se proteger e denunciar abusos dentro de casa, nas igrejas e em qualquer outro lugar;


(...)


sentença

A psicóloga Simone foi condenada a 6 anos e 6 meses em regime semiaberto, e as auxiliares de Enfermagem Maria Nelma [4 anos em regime aberto], Rosângela Almeida [7 anos em semiaberto] e Libertina 1 ano em regime aberto.

A sentença foi proferida após quase dois dias de julgamento e o caso foi considerado um caso único no Brasil e que repercutiu nacionalmente após denúncias veiculadas em rede nacional de televisão mostrando que a clínica de planejamento familiar da ex-médica Neide Mota, na verdade era uma clínica clandestina onde eram realizados abortos.

A médica foi encontrada morta em 29 de novembro do ano passado e a causa apontada pela perícia foi suicídio. Na ocasião foi ventilado que cerca de mil mulheres poderiam ser indiciadas por aborto.



Liziane Berrocal

Fonte: Midiama

segunda-feira, 12 de abril de 2010

quantos? cena 7

Voltamos à cena 1, sacola, Manu 2 rondando Mãe pra resgatar o caderno, que pode ser o Diário de Malinowski.

MANU 2: Do que você lembrou hoje? Não vai me dizer que não fez nada. Sofreu por amor. [não há resposta]
Pra que que você quer um namorado, mãe? Pra ele te bater e tomar o teu dinheiro?

MÃE: Você não vai escrever em lugar nenhum, né? Que eu te passei o contato do silicone e as coisa.

MANU 2 [volta um pouco a fita e desliga o gravador]: Me conta de uma vez a tua vida. [liga o gravador]

MÃE: Eu nasci em 55, numa casa muito abastada. Meus pais, meus irmãos, todos me adoravam, me adoravam. Meu pai trabalhava na Saúde, daí eu já tinha uma ideia de como funcionava transfusão...

MANU 2: Mas você tava me falando de um namorado...

MÃE: Ah você quer saber da minha vida sexual. Achei que você queria saber da minha vida. [pausa] Sabe, depois você vai explicar o quê? Assim, vai repetir tudo o que um doutor americano fala.

MANU 2: Eu gosto dele, mas eu tenho a experiência, eu falo do ponto de vista da experiência. Porque esses doutores criado em casas cheia de livro, que sempre tiveram tudo, eles nunca vão saber como que é. E eu posso falar justamente porque sou travesti.

Silêncio sem assunto.


MÃE: Mas você consegue, quem tem garra. A Helena conseguiu na novela, uma vaga na universidade.

MANU 2: Você sabe o que é ter que conviver com vocês, quando a gente vem de uma família que vê televisão?

MÃE: Falta de ferro no sangue, né. Eles nem me faziam os exames, só furavam meu dedinho e já me barravam.

MANU 2: Vocês tinham mesa no quarto pra estudar. Daí é muito fácil.

MÃE: Eu queria denunciar. Quando chegasse meu exame: é, vocês iam transfundir esse sangue em alguém, transfoder, né, porque não saiu aqui mas eu já to contaminada!

MANU 2: Sendo tratada diferente, desde criança.

MÃE: Gente, vamos melhorar esse sistema?

MANU 2: Vocês sempre tiveram tudo!

MÃE: Aí eu falei assim: Falta de ferro?

MANU 2: Eu nunca tive nada!

MÃE: Isso é falta de fibra, meu bem!

A essa altura, Mãe já está distraída com relação ao caderno. Manu 2 consegue resgatá-lo. Lê mal:


MANU 2: There is not “one” before the social.

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domingo, 11 de abril de 2010

quantos? cena 6

MÃE: Foi logo que saiu o exame. Foi em 1986. Eu já tinha vivido 40 anos muito bem vividos. Então eu não fiquei revoltada. Revoltada, não. Eu fiquei assim deprimida. Revoltada ficaram as outra. Diz que “porque alguém passou pra mim” era pra elas passar pra alguém e aumentaram a carga viral delas. Foi por isso que morreram. A Olga, que era a rainha da rua, de repente se trancou em casa. Ela achava que tinha pegado do papagaio; deu naquele bicho, deu nele com a vassoura até ele morrer. Não tinha asa, né. Mas ele se vingou com uma só bicada nela, que infeccionou, um buraco bem no meio da cara, virando morte, apodrecendo, e nós no hospital, até o dia que ela morreu. De “parada respiratória”, que era só o que os médicos tinham aprendido a repetir.

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sábado, 10 de abril de 2010

roberto malvezzi, sobre a transposição

Pessoalmente eu acho que o mais grave é que eles [empresas] vão comprar água do São Francisco mas vão se apropriar gratuitamente da água de chuva estocada nos grandes açudes. Então eles vão vender não só a água do São Francisco, mas vão vender também a água de chuva das grandes barragens. Vai ser um grande negócio, você vai comprar água ou receber água gratuitamente e revender para as populações. Nesse sentido, segue aquilo que o Banco Mundial sempre quis, que é criar os mercados de água no Brasil. Isso é proibido por lei mas, na prática, a transposição do São Francisco cria esse mercado. É a filosofia internacional da mercantilização da água.

quantos? cena 5

MÃE: O que que você escreveu hoje?

Silêncio.


Vai dizer que você não fez nada?

MANU 1: Também não. O banheiro.

MÃE: Você escovou o azulejo com a escovinha, não foi? Com a escova de dente?

MANU 1: Eu prometo que vou te deixar ler, só que no final.

Mãe espicha o pescoço para o caderno.


MÃE: “Fazer um subcap a partir de Jéssica, q diz p o namorado q é trans e p os clientes q é trav”. E então você escreve em letras grandes: “COMO É MSM O NOME DO JOGO?”
O nome do jogo é capitalismo, meu bem.

MANU 1: Manipulação de identidade.

MÃE: Mas que vergonha, você virou psicóloga?

MANU 1: Eu tenho uma visão científica, que eu estudo há anos, da Antropologia, por isso que eu posso falar. Não é como se eu tivesse no boteco chutando uma explicação pro comportamento da gente.

MÃE: Depois de se comportar a vida inteira.

Se eu roubasse o teu diploma
se eu roubasse a roupa do juiz, meu freguês,
isso seria uma revolução. Quando você rouba a coisa é sempre do outro, é só com a revolução que daí a coisa começa mesmo a ser tua.

MANU 1: Foi o coronel que falou isso?

MÃE: Claro que não. Pro coronel é roubo pra sempre. Eu que tava inventando agora.
Às vezes eu invento letra de música, quando ouço uma música que nunca ouvi, e quase sempre né eu acerto tal como que vai terminar a frase, com que palavra ela vai terminar.

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

quantos? cena 4

Manu distraída. Ouvimos seus pensamentos.

MÃE: Foi em 69. Eu fiz Cleópatra no Carnaval, entrei no palco carregada por dois negões... coisa de bicha, né.

Manu 2 atrás da plateia.


MANU 2: O quê?

[pausa]


MANU 1: Ganhou?

MÃE: Ganhei. Ah, naquele tempo não era que nem hoje.

MANU 1: Quantos anos você tinha?

MANU 2: Descrição densa.

MÃE: Então, ali foi... eu já tinha fugido de casa... eu nasci em 60, então eu tinha treze anos.

MANU 2 [fala junto em “fugido”]: Sido expulsa.

MÃE: Eu nasci em 57, tinha 28 anos.
Eu nasci em 63, tinha 4 anos.

MANU 1: Quantos anos você tinha?

MANU 2: Presta atenção.

MÃE: Eu nasci em 50, entendeu? Pegou o esquema? Não tem dinheiro pra plástica... Quando tinha 33 anos, comecei a falar que ia fazer 22.

MANU 1: Quantos anos você tinha?

MANU 2: Porra você já perguntou isso.

MÃE: Eu era uma menina... eu era linda, eu era linda, eu era linda. Eu fui muito admirada até os quarenta anos. Daí fiz essa cagada. Silicone na cara. Mas antes disso eu ganhei dinheiro, eu ganhei concurso, eu ganhei muito dinheiro. Muito muito. Foi naquela época que as travesti batiam na minha casa no Rio de Janeiro, quando não tinham um lugar, e eu pagava pensão, pagava um mês de aluguel, em plena ditadura militar. Todo mundo apanhando e passando a noite na cadeia, qualquer coisinha, todo mundo tendo que sair da rua pra trabalhar de empregada, e eu ganhando dinheiro, dinheiro. Isso foi antes, né. [pausa]

Tinha seda, tinha lantejoula,
tinha eu, a Marquesa, a Marie, a Poderosa.
A Igreja não tinha fechado o Gala Gay do Operário,
era moda, era lindo, era luxo, era caro,
tinha peruca, tiara, dublage,
ser mulher não era uma banalidade
naquele tempo.

MANU 1: Quantos anos você tinha?

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quinta-feira, 8 de abril de 2010

quantos? cena 3

MÃE: Foi assim, em 1986. Foi quando eu descobri. Eu fiquei revoltada. Eu fiquei muito brava. Eu lamentava 24 horas por dia. Eu achava que até do papagaio era a culpa. Eu botava a camisinha, tinha nojo, tinha raiva. E tinha que levantar, né. [a neca] Como é que você vai explicar pro cliente?

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

quantos? cena 2

São falas, não são leituras no caderno.

MANU 1: O procedimento em campo consistia em deixar as informantes falarem tudo o que lembrassem de suas histórias, interrompendo apenas para esclarecer algum detalhe ou alguma contradição. Isso gerou a comparação, bastante desconfortável para mim, entre o meu trabalho e o de uma psicanalista. Nas entrevistas realizadas por Tatiana, as falas das informantes sofreram um maior número de interrupções. Além dos eixos temáticos, a pesquisadora tinha interesse nas relações dentro do próprio grupo, a dinâmica da cena profissional do sexo, como era aplicado o silicone etc. Enquanto minhas entrevistadas e eu choramos várias vezes durante a narração de suas vidas, Tatiana Savrassoff criou uma atmosfera de fofoca (como ela diz) e leveza – com a vantagem de não ser comparada a uma psicanalista.

MÃE: Eu sei que peguei em relação sexual. Não vou dizer que não experimentei cocaína. Agora, baque, aquela coisa horrorosa, dei uma vez só há um tempo atrás. E assim, agressão assim, em relação a agressão de homem, foram pouquíssimas vezes que eu sofri agressão de homem.

MANU 1: Apesar disso, muitas informações são recorrentes nas entrevistas realizadas por nós duas. Posto que eu não o supunha, acredito ser metodologicamente interessante a observação de que, mesmo num clima de “fofoca”, pode ser levantada uma experiência dolorosa (por exemplo, de abuso sexual). De formas diferentes, conquistamos a confiança das nossas entrevistadas: Tatiana com seu carisma, eu com meus lenços de papel.

MÃE: Eu saí com um cliente e a maricona pediu para mim pra usar junto com ele. Eu falei: “Ó, não é realmente uma coisa que eu tô acostumada a fazer”. E ele disse que pagava o dobro, e eu não. O homem puxou o revólver para mim, depois ele queria que eu usasse a seringa que ele me deu. Eu falei: “eu não quero, eu fico aqui do teu lado mas não vou fazer isso”. Daí ele falou: “você vai sim”. Me apontou o revólver, ficou doido comigo. Daí eu deixei. Fiquei apavorada, com o olho deste tamanho. Mas assim, sabe, pensei, a gente tava no campo, num lugar assim bem deserto. Pensei: “se esse homem quiser aprontar alguma coisa comigo ele vai. Alguma coisa. Me deixa esticada aqui”. Mas foi uma vez e a sensação é horrível. A gente fica péssima, sabe? Uma sensação nojenta, não sei se você já experimentou mas é horrível. Daí depois, acho que até porque ele tava meio demente mesmo.

MANU 1: Além da técnica da entrevista, houve também uma contingência a provocar tais similaridades: as suposições das nossas entrevistadas sobre o que queríamos ouvir coincidem.

MÃE: Uns três dias depois ele pegou e voltou lá de novo, parou o carro. Eu disse: “não, com você eu não saio nunca mais. Por favor, vá embora”. Ele disse: “não, eu vim aqui te pedir desculpa, porque aquele dia eu tava meio bêbado. Sabe que a gente bebe e não sabe o que faz. Daí eu vim te trazer um presente”. Me deu uma blusa assim de presente, importada, e me deu mais 100 reais. Eu disse assim: “agora você tá perdoado”.

Manu 1 fica brava e larga o caderno de campo.


MÃE: Mas sabendo que não tá perdoado, porque esse tipo de coisa, né. Eu não saí mais com ele, esse tipo de coisa a gente não faz com ninguém. Obrigar uma pessoa, só porque... e me pinicou ainda, eu não gosto, o homem bem doido.

Mãe pega o caderno de campo perto de si. Ainda é uma fala.


As entrevistadas começavam dizendo como “tudo começou”, quando seus pais notaram que não eram “meninos normais”, ou que “desde sempre” se interessaram por brincadeiras de meninas, até estarem suficientemente envolvidas para se esquecerem de explicar sua condição, ou de falar apenas sobre ela – embora não exista nenhum momento, nas histórias de suas vidas, em que tal condição não tenha sido percebida como influente. Digo “percebida” como influente porque não se nota à primeira vista a influência que uma condição “normal” tem nas relações sociais, o que é bastante difícil de problematizar. Foi a sua exclusão da “normalidade” que tornou nossas informantes suficientemente sensíveis à importância do gênero em todas as etapas de sua vida.

Mãe lê no caderno o parágrafo seguinte, como em uma primeira leitura.


Ele olha para a gente, vê que a gente é bonita-feminina, né. E daí ele quer assim fazer o programa, daí a gente faz, trata o homem bem. Vai no motel, vai no serv-car, às vezes vai na rua mesmo, vai em qualquer cantinho, se é escorinha, rapidinho mesmo. Não sei por quê, os homens não são acostumado assim a... eles gostam da feição feminina da gente, né, mas eles gostam também do órgão sexual da gente. Eles gostam pelo menos de pegar para eles ver que é, entendeu? Que eles não acreditam, muitos não acreditam. “Nossa, mas você confunde mesmo”. Daí não sei se é isso que envolve um clima assim diferente, um tesão diferente, sei que a gente faz o programa rapidinho.
Aqui acabou a fita. Mas eu ainda dizia: Cerca de dez, quinze minutos você se livra de um homem. Eu quanto mais rápido me livrar de um homem melhor, né. Ter que ficar aguentando os pesos na gente.
Ah, minha juventude.

Mãe sorri e põe a língua pra fora. Está pintada de amarelo.

Manu 1 consegue resgatar o caderno. Lê:


MANU 1: Não existe um “sujeito” que antecede o social.

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terça-feira, 6 de abril de 2010

quantos? cena 1


Isso é uma postagem programada. Uma cena por dia, vamos todo mundo ler gostar e opinar sobre quantos? peça escrita durante a Oficina Regular do Núcleo de Dramaturgia SESI Paraná, sob orientação de Roberto Alvim, no ano de 2009 e publicada em Núcleo de Dramaturgia SESI Paraná. Curitiba: SESI Paraná, 2010. v. 10. Fora o pessoal da oficina, que está implícito, coloquei ali um agradecimento ao Leonardo, que me deu uma referência de onde tirei a ideia da língua pintada, o que permitiu jogar no lixo uma cena inteira. =)


quantos?

Sabrina Lopes

Mãe e Manu são travestis. MANU 1 e MANU 2 são a mesma personagem e, sendo interpretada na primeira parte da peça por um ator, deve ser, na segunda, por uma atriz.

1.

No pátio de um prédio como um labirinto. Manu 1 tem uma sacola, onde está o que ela foi buscar. Pode trazer a inscrição Ministério da Saúde.

MANU 1: Ó. Fui buscar pra você.

MÃE: Não vou tomar porcaria nenhuma...

MANU 1: Mãe!

MÃE: Não fui eu que inventei essa doença.

Da sacola onde estariam os remédios, Manu 1 tira um gravador. Liga.


MÃE: Eu não vou falar disso hoje. [desliga o gravador]

MANU 1: Sabe quem que eu encontrei na rua? O teu Joel.

MÃE [impaciente]: Faz mais de vinte anos.

MANU 1: Faz mais de vinte anos.

Pausa. Manu 1 tira o caderno de campo da mesma sacola e anota.


MÃE: Foi junto quando você nasceu. Em 1986, a gente ia de mão dada no posto, as mona tudo junto, daí só a Olga que não ia. “Porque já tem uma espada pendente sobre a cabeça de todo mundo, eu não preciso fazer um teste pra ver que tem uma espada na minha cabeça”. Se bem que, ali, era verdade. Até que encheram tanto o saco que ela foi. Diz que não fazia diferença. Mas quando ela soube, ficou na cama. Se jogou na cama chorando e não levantou nunca mais. Morreu, né, não demorou três meses.
Eu. Desde que você nasceu. Mas aí tive que parar de tomar hormônio, parar de usar roupa justa. Começar a fazer limpeza. A tia pegou mas não levou, não. Mas eu ainda até hoje tenho cliente.

MANU 1: O coronel... [para de anotar]

MÃE: Daquela época que até hoje só dorme comigo. Porque eu sou assim, carinhosa, assim, feminina, né. E os homens gostam de uma mulher que fala baixinho.

MANU 1: Gostam, é?

MÃE: Quando tão pagando. E ele vem pra cá pelo menos uma vez por mês e me leva com ele, me hospedo no hotel junto com ele e tudo. Só não vou nas festa do exército, né. Deus me livre, o pior pesadelo da minha vida era entrar num quartel. Mas é bom que daí a gente esquece.

MANU 1: Faz programa pra esquecer?

MÃE: Tudo. Tudo o que a gente faz. Até manicure, como se os defuntos também não fizessem manicure. Que é pra não lembrar disso que todo mundo vive tudo arrumadinho, né, que nem um cadáver. Porque eles também, no desespero, penteados e com maquiagem, pra gente.

MANU 1: Só que você também vive disso. [Mãe não ouve]

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segunda-feira, 5 de abril de 2010

corrupção

Minha sobrinha achava legal quando minha irmã me dava carona pra casa, até o dia em que entendeu a utilidade das latinhas customizadas pelos adultos sentados na minha porta.
– Ah, deixa a tia ir a pé, é muito chato levar ela em casa.
– Chato nada, minha casa é emocionante. Tem um gato nela.
– Um gato chamado PEPINO e que come ALFACE. Afff, que emoção!
É assim que as crianças de hoje desistem logo do vegetarianismo. Estão obcecadas com a pedra.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

updatado

Mexo na luminária e ouço o barulhinho da lâmpada quente. Um dia as leitoras não vão mais entender o funcionamento dessas lâmpadas. Vai ter que uma nota de rodapé explicar, então elas vão lembrar dos deseinhos de circuitos da aula de Física: ah! Elas vão ter que imaginar a espiral metálica dentro da lâmpada. Daí vão fazer a mesma cara da minha sobrinha de oito anos ao me ver tirar com uma colher a tampa de uma lata que ela havia examinado de todos os lados antes de tentar abrir com os dedos. Pergunto quer tentar, ela responde não.

Um dia estudantes de efeitos especiais, então efeitos banais, vão ter que aprender a reproduzir o efeito das câmeras digitais baratas que não batem branco. Assistirão aos nossos filmes digitais como hoje vemos os primórdios do cinema mudo. A intensidade da luz mudando sincronizada com os movimentos do elenco será considerada uma dança.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

fórmula

passo > perna = salto

frase inventada desde poema alheio

Madame Sosostris de volta das férias na Desolândia: pés inchados, dedos num vidro como souvenir, mãos salvas nas entranhas rasgadas de um husky: as unhas vermelhas agora memória do sangue do cão e da sombra no Alasca: alguém que nunca a alcançou nem tolerou ficar para trás: Sosostris não pôde dizer quem era: a operação teria manchado o tarô.