sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ouvido no supermercado

já analisei isso. você olha lá pra cima*, tá todo mundo de amarelo. lá embaixo, nas sacadas, todo mundo de branco. não muda nunca. todo ano. amarelo nada, o negócio é usar branco.

cima/baixo = morro/asfalto

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A caixa-alta e seu automático efeito Institucionalizador.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

meu sobrenome na terceira série

Achei tão bonito o comentário no teu blog: “Sabrina, os diamantes não são para comer”, disse minha amiga A, que tem apenas 26 anos.
Almoço de Natal. S entra no modo Tia e ensina a pequena G a cantar “papai Noel um velho batuta”. Pouco tempo depois, no carro, S resmunga a canção. N, seu pai, 75 anos, dispara:
– O quê?
– Tava cantando.
– Ah, a gente tá ficando surdo,
N prossegue resmungando:
– não escuta direito, às vezes pode até se ofender.

a escola da vida e sua palmatória

Minha amiga de olhos azuis entrou no couch surfing e pegou uns 4.
Eu entrei
num site de relacionamento
e ciceroneei um gringo pela cidade.


orlandaaaa,
orlandaaaa...
eternamiente,

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

phdcomics


ainda no tema do copo.


pra não perder o hábito

Antes de tudo, não sei se existe algo universalmente verdadeiro sobre todos os humanos. Eu me preocupo com as normas que governam a questão de quem será considerado humano e quem não, mas não acho que exista um humano fora das normas. Penso que algo acontece quando as normas se rompem, ou quando se resiste às normas, ou quando as normas produzem um campo de assim chamados seres humanos fora das normas. E isso é interessante para mim porque há um modo pelo qual a categoria do humano ao mesmo tempo permite o reconhecimento de certos humanos e produz uma impossibilidade para outros. E a esses outros nós chamamos de humanos? De que os chamamos? É uma questão em aberto. Então penso que o humano sempre produz o espectro da mente e é para isso que estou olhando. Não acho que exista uma forma humana singular, não acho que exista uma capacidade humana singular, mas o que eu acho sim, provavelmente na base do meu trabalho há essa suposição, é que os seres humanos, se as condições sociais forem solidárias - e esse é um requisito importante -, se as condições sociais forem solidárias, os seres humanos, como os outros animais, buscam persistir em seu próprio ser. Essa é uma formulação de Spinoza, na Ética. E isso é interessante na medida em que em Spinoza e em Deleuze o indivíduo persiste em seu próprio ser apenas em relação aos outros, e apenas na medida em que as relações com os outros permitem uma grande afetividade ou uma maior expressividade desse desejo de viver. E é por isso que as condições sociais precisam ser propiciadoras. Não é uma capacidade interna, é uma capacidade que vem a ser vivida e exercida nas relações sociais. Então para mim não é uma parte monádica da minha existência, é algo que só se torna possível no contexto de um conjunto de relações. Não posso persistir em meu próprio ser sem ser parte de um mundo social que torna isso possível e em relação com outros, que, em certo sentido, precisam solicitar ou apoiar meu desejo de viver.

guardei essa pra uma entrevista de emprego, mas nunca me perguntaram

"Se você encheu o copo, ele está metade cheio. Agora, se estava cheio e você derramou a metade, está metade vazio".

Do livro Encher e beber do copo: como fazer sucesso e curtir o processo, da dra. Sabrina Lopes.



(e a questão número 2 é: como continuar fazendo piadas com autoajuda? porque ela continua vendendo como água).

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

agora eu entendi

o que eles chamam de recorte nas ciências sociais na verdade é sinédoque.

terça-feira, 9 de novembro de 2010




um texto da Léo Glück

Carta Grata Ao Indissolúvel Poder Universal Da Emancipação Moral E Financeira De Tudo Sobre Tudo Aquilo Que Julgo Sem Poder Julgar


Não obedeço mais.
Eu não sou mulher para te fazer feliz.
Eu não sou homem para te fazer feliz.
Eu não sou máquina para te fazer feliz.
Eu não fico, eu não saio daqui para te fazer feliz.
Eu acordo e o sangue já existia, o dia já ia alto, o nome, a economia internacional, a praça e os flagelados.
A alma fraca e pobre já existia, o sol, a família. O poder já existia, fundado, fundante, fundável, afundado.
Eu não sou mendiga para te fazer feliz.
Eu não sou menina para te fazer feliz.
Eu não sou mentira para te fazer feliz.
Eu não te agrido para te fazer feliz.
Eu não tenho uma mãe burra para te fazer feliz.
O meu sapato apertado, o couro engomado: eu não sou vítima para te fazer feliz. Nada em mim é para te fazer feliz.
O meu amém não é teu, é ateu, é até, é além, é por sobre o vôo inconstante dos mitos renegados, adorados e dilacerados pelo amor de um povo sórdido.
A rua não é tua, não é minha, não é de Deus, não me venha com lorotas. Eu me vesti assim hoje para viver. Somente para viver.
Eu não te roubo para te fazer feliz.
Eu não te amo para te fazer feliz.
Eu não respeito a tua opressão.
Eu não sou assim para te fazer feliz.
Eu não engulo teu sexo para te fazer feliz.
Eu não engulo a tua porra para te fazer feliz.
Eu não assino um nome civil para te fazer feliz.
Eu não me calo, eu não falo para te fazer feliz.
Eu não rio para te fazer feliz.
Eu não caso, descaso, tenho filhos, sigo rumos, persigo para te fazer feliz.
Eu não sossego o facho para te fazer feliz.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

o que é

classe média baixa: estou correndo atrás do ônibus, mas meu tênis tem amortecedor.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

o medo igualou a esperança

agora vai dar tudo certo, porque o serra falou que apoiava o casamento gay e perdeu um monte de votos.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

CANCELADO

Mulheres cubanas, “mulheres guerreiras”: relatos de uma experiência de intercâmbio em Cuba.
Seminário do Núcleo de Estudos de Gênero
25 de outubro, segunda feira,
às 14 horas
com a Profa. Andréa M. Schactae, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em História da UFPR. (CAPES/ MES-Cuba)
Mais detalhes: www.generos.ufpr.br
Local: Reitoria da UFPR, Anfiteatro 1000, Prédio D. Pedro I (próximo à Livraria do Chain), décimo andar

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

e a l-dopa publicações tem 5 livros novos:
http://ldopa.com.br/

mistérios da natureza

quando você pensa que o fábio júnior não vai mais ser galã de novela,


fiuk.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

gente que faz (download)

Livro - Caderno de Viagem - Trânsito à margem do lago

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

grupo de estudos: teatro alemão

Com a Fer Baukat:
O grupo de estudos tem como propósito oferecer uma introdução à dramaturgia e ao teatro alemão com ênfase num panorama entre os séculos XVIII e XX. Integram suas atividades:
1. A leitura e debate a partir de textos teóricos oriundos da cultura e da prática teatral alemã;
2. A análise de textos teatrais do repertório alemão com a exibição de vídeo/DVD de espetáculos contemporâneos, mediados por debates;
3. Apresentar aos participantes o Teatro Amador em Língua Alemã em Curitiba.

O Círculo de Atividades Integradas é uma iniciativa conjunta das Coordenações da Graduação e da Pós-graduação em Letras da UFPR, no âmbito do Programa CAPES-REUNI.
A participação nas atividades é inteiramente gratuita e será certificada pelas Coordenações de Pós-Graduação em Letras. A carga horária da atividade é de 30h.
Coordenação: Fernanda Baukat (mestranda em Estudos Literários)
Dia/horário: segunda-feira, das 19h30 às 22h30
Carga horária total: 30 horas
Início: 27 de setembro de 2010

Inscrições na secretaria da Pós-Graduação em Letras – Ed. D. Pedro I (Reitoria) – 10º andar. www.pgletras.ufpr.br e pglet@ufpr.br / tel: 41 – 3360-5102 Maiores informações: ferbaukat@hotmail.com

terça-feira, 14 de setembro de 2010

solene, com in

"Nós temos até o final da vida p/ comer o bolo, mas o bolo não tem a vida inteira p/ esperar" Sabrina Bandeira Lopes in 06/07/97

achado num papel antigo da fer bau, disse ela.

abaixo do céu, 01.10







sexta-feira, 27 de agosto de 2010

(bestiário)

uma boca e um cu, é isso que é um animal.

sábado, 21 de agosto de 2010

manifesto da cultura 2010 paraná (propõe criar um conselho estadual de cultura)

(Confusão de gênero, porque hoje em dia, né. Cidadãs, trabalhadoras e produtoras também podem assinar. Já os candidatos, que eu saiba, são todos meninos, e não é coincidência. Em ordem alfabética, legal se alguém me disser que estou enganada:
PCB - Amadeu Felipe, PDT - Osmar Dias, PRTB - Robinson de Paula, PSDB - Beto Richa, PSOL - Luiz Felipe Bergmann, PSTU - Avanilson Araújo, PV - Paulo Salamuni.
As cotas não preveem 30% de um dos dois gêneros legalizados para os cargos executivos, mas para as candidaturas em geral. Não podemos ficar indiferentes ao que vemos. Pode seguir lendo agora).


O Movimento Pró-Conselho Estadual de Cultura, artistas, produtores, trabalhadores, Movimentos Culturais e Sociais, Instituições, cidadãos e demais representantes da sociedade civil organizada vêm publicamente solicitar aos candidatos e candidatas ao Governo do Estado do Paraná e demais cargos eletivos a confirmação do compromisso pela CULTURA, com a seguinte PAUTA:

Criar e implementar a Lei Estadual de Cultura e o Plano Estadual de Cultura articulados aos planos setoriais das linguagens artísticas e áreas culturais, tendo como premissa a instituição do Sistema Estadual de Cultura cuja a base é o Fundo Estadual de Cultura, seguido pela implantação do Conselho Estadual de Cultura, ambos fomentados pelo Controle Social e pela realização periódica das Conferências Estaduais de Cultura.

E, consequentemente, reivindicar que a administração dos recursos e dos Equipamentos Públicos de Cultura do Estado do Paraná se torne cada vez mais eficiente e transparente.

Cientes do papel prioritário da Cultura na sociedade ficam registrados as solicitações por um compromisso público pelas urgentes reivindicações.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010


projeto alteridade, ação digital 5

configuracaoxx@gmail.com, Giovana de Salles e Luciane Figueiredo

Esta é nossa última ação digital. Esperamos que tenham se descoberto com nossas perguntas e se divertido em respondê-las.
Continuaremos mantendo contato, comunicando as próximas ações do nosso projeto. Bem como, o desenvolvimento da troca que fizemos por meio da Ação digital.

AÇÃO DIGITAL 5

1 - O que vem sendo passado para você pelas antepassadas de sua família?
R: ________________________________________________
2- Revistas antigas da década de 50 e 60 sugeriam comportamento para as mulheres, do tipo:
Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas.
(Jornal das Moças, 1957)
Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve
redobrar seu carinho e provas de afeto, sem questioná-lo.
(Revista Claudia, 1962)
A desordem em um banheiro desperta no marido a vontade de ir tomar banho
fora de casa. (Jornal das Moças, 1965)
A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas, servindo-lhe uma
cerveja bem gelada. Nada de incomodá-lo com serviços ou notícias
domésticas. (Jornal das Moças, 1959)
Se o seu marido fuma, não arrume briga pelo simples fato de cair cinzas no
tapete. Tenha cinzeiros espalhados por toda casa. (Jornal das Moças, 1957)

Entre outras aberrações que transformaram as mulheres no que são hoje.
Quais suas sugestões para a mulher contemporânea?
R:__________________________________________________

terça-feira, 10 de agosto de 2010

projeto alteridade -- ação digital 4

sabia que cada pergunta não ia ser qualquer uma, mas olha isso. =O
(os emotícones substituem o ponto de exclamação).
quem quiser entrar em contato com a giovana de salles a luciane figueiredo: configuracaoxx@gmail.com

4 - Você já sofreu (ou sentiu nas entrelinhas) algum tipo de discriminação por ser mulher?
O quê você poderia nos falar sobre isso?
R:_________________
Que personalidade feminina te inspira ou instiga? Por quê?
R:_________________

olha o tipo de anúncio que as perguntas inspiraram no indiscreto gmail.
More about...Infertilidade Mulher »

já responde uma parte, né?

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

sobre dramaturgia

"Dois personagens discutindo? Os dois têm que ter razão".
Antunes Filho via memória de Samir Yazbek.

projeto alteridade 3 e 4

então vai ficando complicado. lopessabrina jamais pareceria um diário, se não acontecesse de ela recortar trechos do diário dela, em que é a primeira e a segunda pessoa, e colar no blogue em que é a terceira. ela finge esquecer que houve momentos aqui que foram barra pesada.

2. Li meu mapa astral e meu diário semanário para essa investigação, mas o presente só ao futuro pertence. Não entendo o que estou vivendo. Meu voto no primeiro turno em um partido que é um pastiche pode ser um autoengano ou um desengano. Trabalho. Amo. Quero ações à altura da minha confiança. Minha sobrinha de oito anos anda numa bike aro 20, mas não sabe nem subir nem descer. Estou tentando entender como começo minhas coisas, para que, havendo queda, pelo menos aconteça no trajeto. Normalmente é na hora de concluir (perfazer as coisas). Ainda ainda não possa dizer que o momento atual é de menos pressa.

3. Se alguém me aceitasse. Se eu fosse um filhinho muito muito querido.
(...)

Propaganda enganosa é a alma do negócio.

Se Clarice dominasse todos esses conceitos, ela disse, não teria sido capaz de fazer o que fiz.

Se Hilda Hilst estivesse solteira, teria conseguido ir para o mato? E Raduan?

Me tornar uma pessoa difícil, me tornar uma pessoa desatenta. Me tornar uma pessoa que dorme sem ouvir os gritos das mulheres na rua, sem ouvir o canto da vizinha em inglês, acompanhando um disco, trying so hard break down her little world. Excepto pela pronúncia dessa palavra. Me tornar uma pessoa que não tem medo de desperdiçar o amor, porque esse é um verso da Sandy. Aprender a tocar viola caipira. As pessoas me quererem como a uma cigarra. Dinheiro é amor, comida é amor, eu sempre tenho reserva e com gosto bom. Não ter que guardar mais tanta comida dentro do meu corpo. Mas o que acontece quando se emagrece: os peitos caem. Diferente não oferecer mais fartura tendo um dia a tido. Formigas são bundudazudas. Como do povo dos bundos. Como uma filha de minha mãe. Me tornar uma pessoa incapaz de fazer um trabalho metódico, que não daria certo como caixa do mercado e por isso logo transferida para anunciar as ofertas, uma pessoa incapaz de revisar um texto. Me tornar cuidada pelos demais, me tornar uma pessoa alheia. Os bifes são trechos do descontrole, a prosa no teatro é da pessoa louca. Me tornar uma hypermetáfora. Não interpretar os meus próprios textos. Esquecer o decorum. Duvidar dos domingos e páscoas. Superar pai e mãe. Não pecar contra a castidade. Quem sabe dessa vez sai o meu voto de castidade. Sempre nos projetos para melhorar de vida junto com o prêmio da megasena, que é mais simples. Sem mais ter que explicar porque é mais simples. Ficar numa boa com esse perder da memória. Esquecer a necessidade de conceitos e só deslumbrar. Ficar assim na frente da escola de samba. Não a noite fria de samba. Não a festa lamentável de carnaval obrigatório. Em cima e não empurrando o carro alegórico. O bloco dos casados era o dos ricos, o bloco dos solteiros era o dos jovens e pobres. Sempre perdia por falta de investimentos. Rejeitar, não ser rejeitada. Como se não chovesse. E não só pelo meu corpo. E não só pela minha entidade. Com mil caralhos, namoram-se pessoas. Não se namoram ideias. Saberei quando tiver coragem de morar pelo menos num bairro.

A mulher real escreveu essas coisas no dia 22.5 para mim, leitora ideal. Corrigido fatura por fartura (essa observação termina com uma onomatopeia). A mulher real, nunca é demais repetir, é uma mulher real há pelo menos 61 anos. De todas as dicotomias, entre amada e amante é a que mais superei. Acima, quando o mundo não acompanha. O ideal de mulher só pode existir num mundo que grita por revolução.
E ter a intenção: uma anoréxica é a prova do que a mulher real consegue fazer com a mulher ideal. É considerada arte se fotografada. Os limites das minhas respostas são os limites do momento atual, por isso estão nesse formato de resposta direta, de fala, matéria para outras leitoras ideais, que também são artistas.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

projeto alteridade, ação digital 3

Para você o que é mulher real?
Para você o que é mulher ideal?

quarta-feira, 28 de julho de 2010

uma pergunta e uma resposta

A Giovana me deixou colar no blog para que assim mais pessoas também possam responder e participar, além de ler alguma coisa da autora desaparecida. Posto com mais de uma semana de atraso por falta de internet etc e gambi. Amanhã cai a pergunta dessa segunda, só para dar um tempo de respirar, e a partir de então serei mais pontual. =)

O Projeto alteridade desenvolvido por Giovana de Salles e Luciane Figueiredo é composto por uma série de ações para desenvolver o processo de alteridade em suas trajetórias .

Nesta ação chamada Ação Digital estamos coletando conteúdos pessoais e procuramos pessoas que possam disponibilizar suas experiências e visões.

Investigando o que nos é autêntico e original, fica curioso saber o que é também autêntico e original para o outro. As identificações e diferenciações com outros padrões nos propõem o fluxo e a ventilação em nossa pesquisa.

Nossos momentos:
Giovana fala: momento de delimitação, conectar minha verdade como artista com os interesses e desejos do outro.

Luciane fala: momento de desintoxicação, para me desprender daquilo que não me serve mais.

OBS: O material trocado gentilmente na Ação Digital poderá ser cedido ou não para a continuidade deste projeto, onde poderá ser manipulado em possíveis criações dramatúrgicas. Mas quando isto acontecer, estaremos consultando a fonte para a aprovação e ressaltando os devidos créditos.
Caso queira contribuir, cedendo seus relatos para manipulação em possíveis criações dramatúrgicas, não se esqueça de nos responder se você gostaria ou não de participar.
SIM
NÃO

A Ação Digital acontecerá em cinco etapas, onde vocês receberão e-mails nossos com instruções investigativas nas seguintes datas:
19/07 segunda-feira ( hoje)
26/07 segunda-feira
02/08 segunda-feira
09/08 segunda-feira
16/08 segunda-feira

Primeira Instrução Investigativa:
1. Percebendo código como um sistema de linguagem interpessoal, nos fale sobre seus códigos e como você os utiliza em seu cotidiano e relações?

Estaremos enviando os próximos 4 e-mails pelo endereço do projeto:
configuracaoxx@gmail.com
Projeto Alteridade


A pergunta, que levei para casa sem anotar, se misturou com uma série de outras que zuniam na minha cabeça. Uma das mais recorrentes é a dos sentidos privilegiados, a visão e a audição e, dizem, o sexto. Não tem o macaquinho que tapa o nariz. Tem o macaquinho que não vê, o que não ouve e o que não fala (eu sei que ele não fala, e não não come, porque vem acompanhado de uma historinha). É produzido, e como, mais sentido a partir desses sentidos do que do tato, paladar e olfato?

A leitura é uma experiência que tenho vivido dos olhos para os ouvidos, mas há quem leia dos dedos para os ouvidos, e ainda quem leia dos olhos para os olhos. Há outras experiências que, como se sabe, podem ser dos dedos para os dedos. A questão pertinente é: com que códigos? Quando eu abraço feliz uma pessoa N, isso diz respeito apenas àquele abraço? O abraço é quentinho não apenas por causa do calor do corpo, mas também porque N me olhou com lasers. O abraço é confortável não apenas por causa do encaixe entre massas e volumes, mas também
porque N me fez sentir querida pelos exatos motivos porque o resto do mundo me dá um joelhaço.

Será então o abraço logocêntrico?

O logocentrismo sempre passa por olhos e ouvidos?

Normalmente me divirto com o uso que ouço por aí de expressões como racionalismo ou ranço cartesiano. Passa para mim, digo. Essa é a parte que me cabe. Mas, que puxa, no abraço?

Enquanto tento encostar todas as células da minha pele nas da pele de outra pessoa, o que significa bastante coisa, tenho me servido do silêncio. Por ser uma pessoa tão verbal quanto Jeová, a tentação de criar mundos a partir de palavras é constante. Então fico quieta.
Então o abraço é bom e quentinho, e não preciso dizer: abraçar você é tão bom e quentinho. Mas isso não nos liberta dos códigos. O silêncio também é um código, e o mais grave, um código que diz respeito aos ouvidos.

domingo, 25 de julho de 2010

tem uns links novos aqui do lado, que tirei deste artigo.

gambiarra, curitiba, dias 26 a 30

ainda sobre a raposa serra do sol e o relato de um doutorando

recebi de novo, e de uma pessoa inteligente, aquele e-mail sobre roraima e vamos antecipar a guerra contra os americanos como justificativa para o genocídio indígena, então,
ouçam o que dizem os macuxi contra e a favor da terra contínua e descubram quem fala pela floresta e quem fala pelo monocultivo do arroz. monocultura e latifúndio são interesses nacionais? não eram a materialidade e o sentido da colonização?

quinta-feira, 22 de julho de 2010

pça. é peça na praça

desculpem.

O BLOGUE DA GAMBIARRA, ELENCO DE OURO, ESTÁ NO AR.
ESTREAMOS SEGUNDA, RUI BARBOSA. TERÇA, GUADALUPE. QUARTA, PRAÇA 19. QUINTA, GUADALUPE. SEXTA, LARGO DA ORDEM. DAÍ ACABA. SEMPRE ÀS 14 E 17 HORAS.


inverno

o foda de trepar é que você tem que tomar banho.

domingo, 18 de julho de 2010

por que não tocam essa na balada?

perguntou sabrina, a coroa.



não podemos ficar indiferentes ao que vemos.

e tem esse pra começar no 1:23.

sábado, 10 de julho de 2010

sábado, 3 de julho de 2010

queridos e queridas vizinhos e vizinhas

enfiem suas cornetas no rabo.

aceito a oferta do google

adoro dentes de leão, mas eles não se parecem com o que coloco neste blog. deve ser porque há muito tempo não tenho um quintal. deve ser porque agora, quando escrevo dentes de leão, penso em hífens. e quando escrevo hífens, penso em hifenes.

mas esse verdinho não tem nas alterações autônomas que o blogger me oferece, só posso usá-lo de fundo se pegar um modelo.

poluição: de agora em diante, todos os meus posts devem terminar com um mas.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

gambiarra

– Surrealismo.
– Isso é filé. Deve ter custado uns 18 reais!

– Ela vai comer isso. Ah, não, eu não quero ver!

Performer pinta no calçadão um grande bife com tinta vermelha. Outra roda.

– Claro que não é macumba. Por que ela ia fazer macumba logo aqui?
– Mas então...

Ela pega um pincel e começa a escrever num dos papéis que apoiavam a carne.

– Ah, ela está fazendo uma crítica pra quem come carne.
[furiosa] Ah, Luis, quê. Para de ficar pagando de inteligente!

Tempo necessário para Luis se recuperar.

– Mas. Ela tem um perfil de quem não come carne.

zaius, 1997



vi aqui.

um update: não existe insônia que justifique o erro de português retirado daqui para sempre.

daí quem não acompanha o blog pensa: que puxa que perdi esse erro de português.

pois.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

cafÉ

As mulheres do CAF convidam.


terça-feira, 22 de junho de 2010


Se quisesse levar cultura para o povo,
eu ia trabalhar na tevê.

pelo fim das capitanias hereditárias

Você acha que deveria haver um limite para as propriedades de terra no Brasil? Entre os dias 1º e 7 de setembro deste ano, a sociedade brasileira terá a oportunidade responder a essa pergunta através de um plebiscito popular. A iniciativa é do Fórum Nacional Popular pela Reforma Agrária e Justiça no Campo e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Diversas organizações e entidades sociais já começaram a se articular para preparar a consulta. A ideia é, até setembro, conscientizar e mobilizar a população brasileira sobre a importância do limite, e mostrar como a concentração de terras interfere negativamente na estrutura política, social, geografia e econômica do país. O plebiscito irá propor um limite de 35 módulos fiscais para as propriedades rurais. Segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), módulo fiscal é a unidade que "serve de parâmetro para classificação do imóvel rural quanto ao tamanho". De acordo com a Campanha Nacional pelo Limite da Propriedade da Terra, a inclusão na Constituição dessa limitação "resultaria numa disponibilidade imediata de mais de 200 milhões de hectares de terra para as famílias acampadas, sem despender recursos públicos para a indenização dos proprietários".
Os interessados em participar da Campanha já podem assinar e divulgar o abaixo-assinado em apoio à proposta de emenda. Para se tornar um projeto de lei de iniciativa popular, são necessárias 1,5 milhão de assinaturas. Conheça a campanha e divulgue: http://www.limiteda terra.org. br/index. php.

Fonte: ADITAL

terça-feira, 15 de junho de 2010

2010

Numa distopia escrita em 1897, havia um Festival Mundial de Futebol que em 2010 começava assim: a banda Ervilhas Olhinegras fazia uma dança robótica vista no mundo todo via aparelhos de rádio com imagem, transmitida por satélites artificiais. O comentarista esportivo dizia que era a melhor banda de todos os tempos, que entraria para a história como a trilha sonora daquele início de século. O show era acompanhado por pessoas do mundo inteiro, que andavam de dirigível como quem anda de trem. E todo mundo junto cantava, e essa era a comunhão dionisíaca de ponta:

Temos que ter aquele, temos que ter aquele
Temos que ter aquele aquele aquele aquele aquele

Boom boom boom (Temos que ter aquele)
Boom boom boom (Temos que ter aquele)
Boom boom boom (Temos que ter aquele)
Boom boom boom (Temos que ter aquele)

Boom boom pow (sim)
Boom boom pow (sim)
Boom boom pow
Boom boom pow

Ei, eu tenho o hit que agita o quarteirão
Você pode pegar pesado nos graves
Eu tenho aquele "rock and roll"
O fluxo do futuro

Aquela rima digital
O visual do próximo nivel
Eu tenho aquele (Boom boom boom)
Como bate a música (Boom boom boom)losin

Eu gosto desse Boom Boom Pow
As galinhas estão imitando meu estilo
Elas tentam copiar minha vaidade
Eu sou a próxima moda

Sou tão atualizada
Você é tão atrasado
Eu tenho o Boom Boom Boom
Aquele Boom Boom Boom do futuro
Vou te mostrar agora

Boom boom boom (Temos que ter aquele)
Boom boom boom (Temos que ter aquele)
Boom boom boom (Temos que ter aquele)
Boom boom boom (Temos que ter aquele)

Boom boom pow (sim)
Boom boom pow (sim)
Boom boom pow
Boom boom pow

Estou em um "boom" supersônico
Vocês ouvem aquele zunido da nave espacial
Quando, quando eu passo dentro da sala
As garotas enlouquecem feito macacas

Você está preso no super 8-Shit
Este som de baixa fidelidade é um pouco estúpido
Eu estou em alta definição
A batida vai boom boom pow

Eu viro uma fera quando você me excita
Rumo ao futuro cyber-trônico
Mais duro, mais rápido, melhor, mais forte
Fazem as garotas extra grandes, porque

Temos a batida que balança
Temos a batida que bate
Temos a batida que 808
Que o boom boom na sua cidade

Todo mundo aqui
Se quiserem arrasar
Coloquem suas mão para o ar
Will.i.am solta a batida agora!

Yep Yep
Eu estou dançando as batidas (Yep, Yep)
Eu estou dançando as batidas (Yep, Yep, Yep, Yep)

Aqui vamos nós, aqui vamos pelas rádios e satélites
Todos estão sendo atingidos pelo Boom Boom
Batidas tão grandes que estou virando duende
Todos estão loucos com o Boom Boom

Todos estão loucos com o Boom Boom
Todos estão loucos com o...

Esta batida está pulando pulando
Essa batida é assim: boom boom

Deixe a batida soar
Deixe a batida soar
Deixe a batida soar

Esta batida está pulando pulando
Essa batida é assim: boom boom

Eu gosto desse Boom Boom Pow
As garotas estão imitando meu estilo
Eles tentam copiar minha vaidade
Eu sou a próxima moda

Sou tão 3008
Você é tão 2000 e pouco
Eu tenho o Boom Boom Boom
O futuro Boom Boom Boom
Vou te mostrar agora

Boom boom boom (Temos que ter aquele)
Boom boom boom (Temos que ter aquele)
Boom boom boom (Temos que ter aquele)
Boom boom boom (Temos que ter aquele)

Boom boom pow (sim)
Boom boom pow (sim)
Boom boom pow
Boom boom pow

Deixe a batida soar
Deixe a batida soar
Deixe a batida soar
Deixe a batida
Deixe a batida
Deixe a batida soar, soar, soar, soar


O livro foi rejeitado pelo nonsense.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

mais uma crença, ou vontade de acreditar?



a kaisa era minha amiga de ônibus lá no rio.



e no 6 de outubro a gente faz o buellersday.


outra coisa: o augusto boal diz que a peça se chama otelo, e não iago, porque otelo é quem sai transformado. seguindo essa lógica, o filme deveria se chamar cameron.


domingo, 13 de junho de 2010

mais uma chance

roque:


os limpos e os sujos

(meio porque estava nos rascunhos há décadas)

Ele tinha dito a mesma coisa.

– Seus peitos são bonitos. Eles não são tão pequenos.

Eu sorri.

– Mas ela sabe!

– Teu pau também, não é tão pequeno.

Mentira, eu não disse.

Eles leram um livro igual, por isso o segundo não me enganou.

– Eu fiquei um ano e meio esperando pra te beijar. Podia passar a noite inteira só te beijando.

Eu ouvi isso em maio e ouvi em outubro, só que ele disse três anos. Eu dei uma escova de dentes pra cada um, já que ele e ele apareceram na minha casa me beijar sem escovar os dentes.

Eu achava que merecia coisa melhor, achei por um ano e meio, achei por três anos esperando e não consigo mesmo acreditar no que aconteceu em outubro e maio.

Enquanto eles esperavam, namorei dois que eram realmente limpos. Eles ficavam trinta segundos beijando meu rosto e minha cabeça depois e saíam da cama pra ligar o chuveiro. "Fica mais meia hora abraçado comigo", eu falava com dignidade. Eles voltavam bonzinhos, com suas bocas de buceta e pasta de dente, nem pareciam precisar de um banho.

Um furou minha parede. Foi a única vez que ficou bonito de camisa regata, ele era um burocrata com fetiche operário. No bar eu gritava: "Camisas regatas", e minhas amigas em corinho só pra me agradar: "não passarão!". Furou tudo torto, depois ficamos duas vezes seguidas três horas fazendo sexo, ele sim sabia me comer e aprendeu direitinho tudo o que eu ensinava. Aprendeu a beijar como uma mulher e fazer sexo oral como uma mulher e era por isso que eu o recompensava com o pau na minha boca sentada na cara dele gozando e fazendo esforço pra ninguém se machucar.

O outro eu amei e passei a mão na cabeça e continuei com ele até ser impossível. Nunca dormimos juntos, apneia, eu ficava a noite inteira acordada com medo que ele morresse, contando 123456789101112131415 segundos antes do ronco. Então eu o acarinhava e dizia “respira, meu amado, minha alma, meu coração” e ele ia sonâmbulo e irritado se deitar no sofá.

Os namorados eu olhei feliz quando ouvi “gostosa” porque era preciso comer eles fundo e com força com pernas extras pra ouvir um gemido que fosse, eles sim eram limpos, eles eram quietinhos. A sujeira era admirável.

– Mas se você mudasse de ideia e namorasse alguém esse ano, não ia ser comigo.

– Não. Em outra época eu podia ser pega de surpresa, não a essa altura.

Ele desconcertado, com ódio. Ele relinchava sobre mim como um cavalo numa caverna e eu tive que ensinar ele a escovar a língua. Ele e ele ficaram com a impressão de que eu queria que fossem embora porque a atmosfera de manhã era de ressaca. Ele fazia o ar ficar meio sujo e ele me disse gostosa com a boca cheirando a buceta e cigarro, buceta e banana. Ele raspava as bolas que ficavam com os pelos meio crescidos como ele deveu se sentir quando lambeu minha perna aquela noite sobre a mesa. Ele eu nunca vi tomar banho e ele tomou uma vez no segundo encontro quando eu disse que estava menstruada e a gente só podia fazer no chuveiro. Por isso que o meu preferido foi ele.


quarta-feira, 9 de junho de 2010

perguntas para primeiro encontro

(diria para conferir o resultado de ponta-cabeça, mas fiz voto de castidade)

Você é de gêmeos? Áries?
Te dá agonia se o vento te despenteia?
Será o câncer uma emoção reprimida?
A d. Buce te inspira, ou já inspirou, algum tipo de pânico? Descreva.
Você acredita nos protocolos dos sábios de Sião?
Você acredita no leitor médio?
Você precisa de álcool do trabalho para casa?
Você possui relógio biológico?
Discorra sobre a revolução agrária.
Quantas horas/semana você gasta com videogame?
Você acredita em bissexualidade?
E o governo dando dinheiro para artistas?
E em amor livre?
E ménage a trois?
E sexo com estranhos, sem camisinha, no d. Juan Hotel*?
Em reencarnação?
Se ganhasse na mega-sena, você compraria um terreno no alphaville?

* É um verso de uma canção de uns amigos, que acredito prefiram só ser citados no indefinido, aqui.


olha o andrew

esse negócio de olhos quase me dá um treco.

Com as Próprias Mãos from GRAFO Audiovisual on Vimeo.


segunda-feira, 24 de maio de 2010

vilas oficinas

Marcão passa por um carro empurrado por muitos homens. No entanto, parado. Precisam de ajuda? Querem puxar a bateria?
– Obrigado, cara. A gente tá tomando geral.
Civis.

domingo, 23 de maio de 2010

é nóis

com duplo joana, cowboy.

dos empecilhos ao amor livre

Filha: Cheguei na lotérica, a mulher lançou o jogo pra mim enquanto eu revirava minha bolsa. Daí vi que tinha esquecido o porta-moedas.
Mãe: Por que não ligou pra avisar?
Filha: Ela pendurou o jogo na vitrine pra tentar vender, e eu fui embora com vergonha.
Pai: A gente podia ter ido lá comprado.
Filha: Agora só falta sair o número.
Pai: Imagina, com o prêmio acumulado, muita gente jogando. É impossível ganhar. Claro que não vai sair.
Mãe: Tomara que não. Nem pensar.

terça-feira, 18 de maio de 2010

jamais tuitarás

sabrina entre outros/ sabrina de todo/ sabrina de nada/ que é sabrina?

uma dor intramuscular que é uma mistura de insônia com inverno.

eu falando de amor é metalinguagem.

domingo, 9 de maio de 2010

em português também

why tolerance is a bad word:


quinta-feira, 22 de abril de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

segunda-feira, 19 de abril de 2010

pôr do sol, ou

deus era um careta que parou no impressionismo (malanski).

sábado, 17 de abril de 2010

quantos? cena 12

Manu 1 é um fantasma e arremeda coisas que já ouviu.

MANU 2: Quando iniciei o presente estudo, um colega questionava o uso que faço do pronome feminino sempre que me refiro às travestis. Segundo ele, como cientista social, eu não deveria comprar o discurso de minhas informantes, e ao invés disso utilizar suas identidades jurídicas, o nome civil no masculino. Não considero que comprar o discurso jurídico conferiria mais neutralidade a esta pesquisa, além de desrespeitar a identidade atribuída pelos próprios sujeitos. O fato de pertencermos à mesma sociedade talvez cause problemas de distanciamento: seria possível argumentar que, quando chamo meu amigo de “ele”, também estou me expressando em termos “nativos”.

MANU 1: Se você vai continuar com pinto, por que usar batom?

MANU 2: Tem etnógrafos anotando bem aquilo que eles lutam contra: o pitoresco.

MÃE: Claro que também sempre tem aquelas que não sabem fazer boquete.

MANU 1: Por que você não faz um tratamento pra ser homem?

MANU 2: Não é poder sobre a morte. É poder sobre a vida.

MANU 1: Se você fosse operado, eu te chamava de ela.

MANU 2: Ela disse uma hierarquia, uma hierarquia das mortes.

MANU 1: Um rapaz tão bonito.

MANU 2: Me pediram pra ver e eu mostrei. Mijei na grana que me estendiam.

MÃE: O coronel diz que é uma questão de classe.

MANU 2: Não era disso que eu queria falar...

MANU 1: Tá, Manu é teu nome social. Eu queria saber como é teu nome.

MANU 2: só que o órgão financiador... Emanoele!

MÃE: Pra elas hoje eu pareço um velhão. Mas fui uma das primeira que disse.

MANU 1: A gente até aceita, a gente tolera. Mas por que essa necessidade assim de se exibir?

MANU 2: Uma visão emancipadora, não era pra ser o poder no foder.

MÃE: Ganhará o pão com o suor do teu rosto. É maldição.

MANU 1: Mas se a gente vai chamar você de ela, como é que faz com o banheiro?

MANU 2: Fundação é o teu nome social mas: o nome do jogo?

MÃE: A tia era só um detalhe na minha vida. Eu não falei de tudo.

MANU 1: Sodoma e Gomorra, desse jeito as escolas vão virar.

MÃE [hino nacional?]: Tão sempre protelando o fim do mundo.

MANU 1: Pra que ser tão agressiva?



FIM.


sexta-feira, 16 de abril de 2010

quantos? cena 11

Manu 2 abre a sacolinha. De dentro, saca o poema impresso com cara de cartilha.

Lê.


MANU 2: Porque uma vez eu soube e não acreditei,
porque parei o choro quando levantei,
porque ninguém sabia onde eu estava,
eu enfrentei sozinha a minha juventude.
Porque não sou a mancha que me ameaça,
porque eu sou a mulher que me ama mais,
eu me recuso e eu não vou morrer de Aids.

Mãe acha lindo como se nunca tivesse ouvido.

Mãe aceita o remédio.


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quinta-feira, 15 de abril de 2010

quantos? cena 10

MÃE: Não, mas você não entendeu, bem. Eu tava no auge da força, em 1986 eu tinha só 20 anos, e eu falei: isso aqui não vai me derrubar não. Eu nunca fiz a linha deprimida. E eu fiquei com a cabeça erguida, e eu fiquei com o corpo pra cima, eu nunca me joguei na cama. E foi assim que eu sobrevivi enquanto as outra morreram. Tirando uma força de mim, não sei de onde.

MANU 2: Eu sempre quis morrer, só que minha mãe nunca deixou.

MÃE: Então, as coisa que a gente faz pela família da gente. Ou usa a família como desculpa.

MANU 2: Eu sempre quis ser professora.

----------.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

quantos? cena 9

MÃE [tem um caderno seu]: A barriga, pouca, projetada,
meio pera o traveco magro.

MANU 2: Imagina se a Sheila visse alguém chamar ela de o traveco.
Ainda bem que já tá lá no Mato Grosso.
Esses poetas de rua querendo achar um selo de marginalidade
lacrando nosso rabo.

MÃE: Mas aí:
Na cabeça uma coroa
mais parecendo uma auréola
em que brilham as palavras
EU APANHO.

MANU 2: Imagina, era ela mesma?

MÃE: Naquele dia foi. Foi por causa daquela doença, né, que a gente não gosta nem de dizer o nome.

MANU 2: Crack?

MÃE [concorda]: Daí você vê, eu nem preciso passear pela Tobias de Macedo pra sentir raiva, é bem pelo contrário, e ninguém lê minhas poesia.

MANU 2: Tá aí?

MÃE: Porque uma vez eu soube e não acreditei,
porque parei o choro quando levantei,
porque ninguém sabia onde eu estava,
eu enfrentei sozinha a minha juventude.
Porque não sou a mancha que me ameaça,
porque eu sou a mulher que me ama mais,
eu me recuso e eu não vou morrer de Aids.

MANU 2: Interessante.

MÃE: Interessante, né. São os dizeres que eu gosto de fazer, assim, uma coisa pra cima. Que é da minha natureza.

Fala, com vírgulas.


Eu nasci, assim, eu cresci, assim, eu sou mesmo, assim,

MANU 2 [canta?]: vou ser sempre assim.

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terça-feira, 13 de abril de 2010

quantos? cena 8

MÃE [canta]: Sabe, Senhor,
o que temos é tão pouco pra dar,
mas esse pouco
nós queremos com os irmãos compartilhar.


MANU 2: Está chorando de quê?

MÃE: De Aids.

Silêncio.


Era disso que eu queria falar.

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nota oficial da abglt sobre declarações do vaticano referentes à homossexualidade

(...)

A ABGLT não aceita esta provocação do Vaticano contra as pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – LGBT, que não passa de uma tentativa de desviar a atenção do problema maior que se prolifera dentro do seio da Igreja Católica, o qual deve - sim - ser explicado e esclarecido para a sociedade em geral;

A ABGLT defende um Estado Laico e entende que a liberdade religiosa não garante ao Vaticano o direito de julgar com suas próprias leis os seus pares que abusam de crianças e adolescentes. A ABGLT entende que religiosos que cometam crimes de abuso sexual de crianças e adolescentes, além de ter o devido acompanhamento dos serviços de saúde, devem ser submetidos às penas previstas pela lei secular, assim como o restante da população. Assim, a ABGLT se soma às demais instituições de direitos humanos e pede que o Vaticano se explique sobre estes crimes cometidos por sacerdotes católicos, e que não culpe de forma irresponsável a comunidade LGBT;

A ABGLT, diferente dos setores fundamentalistas religiosos, defende a educação sexual para crianças e adolescentes, de tal modo que aprendam a ter autonomia sobre seu corpo, e a se proteger e denunciar abusos dentro de casa, nas igrejas e em qualquer outro lugar;


(...)


sentença

A psicóloga Simone foi condenada a 6 anos e 6 meses em regime semiaberto, e as auxiliares de Enfermagem Maria Nelma [4 anos em regime aberto], Rosângela Almeida [7 anos em semiaberto] e Libertina 1 ano em regime aberto.

A sentença foi proferida após quase dois dias de julgamento e o caso foi considerado um caso único no Brasil e que repercutiu nacionalmente após denúncias veiculadas em rede nacional de televisão mostrando que a clínica de planejamento familiar da ex-médica Neide Mota, na verdade era uma clínica clandestina onde eram realizados abortos.

A médica foi encontrada morta em 29 de novembro do ano passado e a causa apontada pela perícia foi suicídio. Na ocasião foi ventilado que cerca de mil mulheres poderiam ser indiciadas por aborto.



Liziane Berrocal

Fonte: Midiama

segunda-feira, 12 de abril de 2010

quantos? cena 7

Voltamos à cena 1, sacola, Manu 2 rondando Mãe pra resgatar o caderno, que pode ser o Diário de Malinowski.

MANU 2: Do que você lembrou hoje? Não vai me dizer que não fez nada. Sofreu por amor. [não há resposta]
Pra que que você quer um namorado, mãe? Pra ele te bater e tomar o teu dinheiro?

MÃE: Você não vai escrever em lugar nenhum, né? Que eu te passei o contato do silicone e as coisa.

MANU 2 [volta um pouco a fita e desliga o gravador]: Me conta de uma vez a tua vida. [liga o gravador]

MÃE: Eu nasci em 55, numa casa muito abastada. Meus pais, meus irmãos, todos me adoravam, me adoravam. Meu pai trabalhava na Saúde, daí eu já tinha uma ideia de como funcionava transfusão...

MANU 2: Mas você tava me falando de um namorado...

MÃE: Ah você quer saber da minha vida sexual. Achei que você queria saber da minha vida. [pausa] Sabe, depois você vai explicar o quê? Assim, vai repetir tudo o que um doutor americano fala.

MANU 2: Eu gosto dele, mas eu tenho a experiência, eu falo do ponto de vista da experiência. Porque esses doutores criado em casas cheia de livro, que sempre tiveram tudo, eles nunca vão saber como que é. E eu posso falar justamente porque sou travesti.

Silêncio sem assunto.


MÃE: Mas você consegue, quem tem garra. A Helena conseguiu na novela, uma vaga na universidade.

MANU 2: Você sabe o que é ter que conviver com vocês, quando a gente vem de uma família que vê televisão?

MÃE: Falta de ferro no sangue, né. Eles nem me faziam os exames, só furavam meu dedinho e já me barravam.

MANU 2: Vocês tinham mesa no quarto pra estudar. Daí é muito fácil.

MÃE: Eu queria denunciar. Quando chegasse meu exame: é, vocês iam transfundir esse sangue em alguém, transfoder, né, porque não saiu aqui mas eu já to contaminada!

MANU 2: Sendo tratada diferente, desde criança.

MÃE: Gente, vamos melhorar esse sistema?

MANU 2: Vocês sempre tiveram tudo!

MÃE: Aí eu falei assim: Falta de ferro?

MANU 2: Eu nunca tive nada!

MÃE: Isso é falta de fibra, meu bem!

A essa altura, Mãe já está distraída com relação ao caderno. Manu 2 consegue resgatá-lo. Lê mal:


MANU 2: There is not “one” before the social.

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domingo, 11 de abril de 2010

quantos? cena 6

MÃE: Foi logo que saiu o exame. Foi em 1986. Eu já tinha vivido 40 anos muito bem vividos. Então eu não fiquei revoltada. Revoltada, não. Eu fiquei assim deprimida. Revoltada ficaram as outra. Diz que “porque alguém passou pra mim” era pra elas passar pra alguém e aumentaram a carga viral delas. Foi por isso que morreram. A Olga, que era a rainha da rua, de repente se trancou em casa. Ela achava que tinha pegado do papagaio; deu naquele bicho, deu nele com a vassoura até ele morrer. Não tinha asa, né. Mas ele se vingou com uma só bicada nela, que infeccionou, um buraco bem no meio da cara, virando morte, apodrecendo, e nós no hospital, até o dia que ela morreu. De “parada respiratória”, que era só o que os médicos tinham aprendido a repetir.

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sábado, 10 de abril de 2010

roberto malvezzi, sobre a transposição

Pessoalmente eu acho que o mais grave é que eles [empresas] vão comprar água do São Francisco mas vão se apropriar gratuitamente da água de chuva estocada nos grandes açudes. Então eles vão vender não só a água do São Francisco, mas vão vender também a água de chuva das grandes barragens. Vai ser um grande negócio, você vai comprar água ou receber água gratuitamente e revender para as populações. Nesse sentido, segue aquilo que o Banco Mundial sempre quis, que é criar os mercados de água no Brasil. Isso é proibido por lei mas, na prática, a transposição do São Francisco cria esse mercado. É a filosofia internacional da mercantilização da água.

quantos? cena 5

MÃE: O que que você escreveu hoje?

Silêncio.


Vai dizer que você não fez nada?

MANU 1: Também não. O banheiro.

MÃE: Você escovou o azulejo com a escovinha, não foi? Com a escova de dente?

MANU 1: Eu prometo que vou te deixar ler, só que no final.

Mãe espicha o pescoço para o caderno.


MÃE: “Fazer um subcap a partir de Jéssica, q diz p o namorado q é trans e p os clientes q é trav”. E então você escreve em letras grandes: “COMO É MSM O NOME DO JOGO?”
O nome do jogo é capitalismo, meu bem.

MANU 1: Manipulação de identidade.

MÃE: Mas que vergonha, você virou psicóloga?

MANU 1: Eu tenho uma visão científica, que eu estudo há anos, da Antropologia, por isso que eu posso falar. Não é como se eu tivesse no boteco chutando uma explicação pro comportamento da gente.

MÃE: Depois de se comportar a vida inteira.

Se eu roubasse o teu diploma
se eu roubasse a roupa do juiz, meu freguês,
isso seria uma revolução. Quando você rouba a coisa é sempre do outro, é só com a revolução que daí a coisa começa mesmo a ser tua.

MANU 1: Foi o coronel que falou isso?

MÃE: Claro que não. Pro coronel é roubo pra sempre. Eu que tava inventando agora.
Às vezes eu invento letra de música, quando ouço uma música que nunca ouvi, e quase sempre né eu acerto tal como que vai terminar a frase, com que palavra ela vai terminar.

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

quantos? cena 4

Manu distraída. Ouvimos seus pensamentos.

MÃE: Foi em 69. Eu fiz Cleópatra no Carnaval, entrei no palco carregada por dois negões... coisa de bicha, né.

Manu 2 atrás da plateia.


MANU 2: O quê?

[pausa]


MANU 1: Ganhou?

MÃE: Ganhei. Ah, naquele tempo não era que nem hoje.

MANU 1: Quantos anos você tinha?

MANU 2: Descrição densa.

MÃE: Então, ali foi... eu já tinha fugido de casa... eu nasci em 60, então eu tinha treze anos.

MANU 2 [fala junto em “fugido”]: Sido expulsa.

MÃE: Eu nasci em 57, tinha 28 anos.
Eu nasci em 63, tinha 4 anos.

MANU 1: Quantos anos você tinha?

MANU 2: Presta atenção.

MÃE: Eu nasci em 50, entendeu? Pegou o esquema? Não tem dinheiro pra plástica... Quando tinha 33 anos, comecei a falar que ia fazer 22.

MANU 1: Quantos anos você tinha?

MANU 2: Porra você já perguntou isso.

MÃE: Eu era uma menina... eu era linda, eu era linda, eu era linda. Eu fui muito admirada até os quarenta anos. Daí fiz essa cagada. Silicone na cara. Mas antes disso eu ganhei dinheiro, eu ganhei concurso, eu ganhei muito dinheiro. Muito muito. Foi naquela época que as travesti batiam na minha casa no Rio de Janeiro, quando não tinham um lugar, e eu pagava pensão, pagava um mês de aluguel, em plena ditadura militar. Todo mundo apanhando e passando a noite na cadeia, qualquer coisinha, todo mundo tendo que sair da rua pra trabalhar de empregada, e eu ganhando dinheiro, dinheiro. Isso foi antes, né. [pausa]

Tinha seda, tinha lantejoula,
tinha eu, a Marquesa, a Marie, a Poderosa.
A Igreja não tinha fechado o Gala Gay do Operário,
era moda, era lindo, era luxo, era caro,
tinha peruca, tiara, dublage,
ser mulher não era uma banalidade
naquele tempo.

MANU 1: Quantos anos você tinha?

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quinta-feira, 8 de abril de 2010

quantos? cena 3

MÃE: Foi assim, em 1986. Foi quando eu descobri. Eu fiquei revoltada. Eu fiquei muito brava. Eu lamentava 24 horas por dia. Eu achava que até do papagaio era a culpa. Eu botava a camisinha, tinha nojo, tinha raiva. E tinha que levantar, né. [a neca] Como é que você vai explicar pro cliente?

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

quantos? cena 2

São falas, não são leituras no caderno.

MANU 1: O procedimento em campo consistia em deixar as informantes falarem tudo o que lembrassem de suas histórias, interrompendo apenas para esclarecer algum detalhe ou alguma contradição. Isso gerou a comparação, bastante desconfortável para mim, entre o meu trabalho e o de uma psicanalista. Nas entrevistas realizadas por Tatiana, as falas das informantes sofreram um maior número de interrupções. Além dos eixos temáticos, a pesquisadora tinha interesse nas relações dentro do próprio grupo, a dinâmica da cena profissional do sexo, como era aplicado o silicone etc. Enquanto minhas entrevistadas e eu choramos várias vezes durante a narração de suas vidas, Tatiana Savrassoff criou uma atmosfera de fofoca (como ela diz) e leveza – com a vantagem de não ser comparada a uma psicanalista.

MÃE: Eu sei que peguei em relação sexual. Não vou dizer que não experimentei cocaína. Agora, baque, aquela coisa horrorosa, dei uma vez só há um tempo atrás. E assim, agressão assim, em relação a agressão de homem, foram pouquíssimas vezes que eu sofri agressão de homem.

MANU 1: Apesar disso, muitas informações são recorrentes nas entrevistas realizadas por nós duas. Posto que eu não o supunha, acredito ser metodologicamente interessante a observação de que, mesmo num clima de “fofoca”, pode ser levantada uma experiência dolorosa (por exemplo, de abuso sexual). De formas diferentes, conquistamos a confiança das nossas entrevistadas: Tatiana com seu carisma, eu com meus lenços de papel.

MÃE: Eu saí com um cliente e a maricona pediu para mim pra usar junto com ele. Eu falei: “Ó, não é realmente uma coisa que eu tô acostumada a fazer”. E ele disse que pagava o dobro, e eu não. O homem puxou o revólver para mim, depois ele queria que eu usasse a seringa que ele me deu. Eu falei: “eu não quero, eu fico aqui do teu lado mas não vou fazer isso”. Daí ele falou: “você vai sim”. Me apontou o revólver, ficou doido comigo. Daí eu deixei. Fiquei apavorada, com o olho deste tamanho. Mas assim, sabe, pensei, a gente tava no campo, num lugar assim bem deserto. Pensei: “se esse homem quiser aprontar alguma coisa comigo ele vai. Alguma coisa. Me deixa esticada aqui”. Mas foi uma vez e a sensação é horrível. A gente fica péssima, sabe? Uma sensação nojenta, não sei se você já experimentou mas é horrível. Daí depois, acho que até porque ele tava meio demente mesmo.

MANU 1: Além da técnica da entrevista, houve também uma contingência a provocar tais similaridades: as suposições das nossas entrevistadas sobre o que queríamos ouvir coincidem.

MÃE: Uns três dias depois ele pegou e voltou lá de novo, parou o carro. Eu disse: “não, com você eu não saio nunca mais. Por favor, vá embora”. Ele disse: “não, eu vim aqui te pedir desculpa, porque aquele dia eu tava meio bêbado. Sabe que a gente bebe e não sabe o que faz. Daí eu vim te trazer um presente”. Me deu uma blusa assim de presente, importada, e me deu mais 100 reais. Eu disse assim: “agora você tá perdoado”.

Manu 1 fica brava e larga o caderno de campo.


MÃE: Mas sabendo que não tá perdoado, porque esse tipo de coisa, né. Eu não saí mais com ele, esse tipo de coisa a gente não faz com ninguém. Obrigar uma pessoa, só porque... e me pinicou ainda, eu não gosto, o homem bem doido.

Mãe pega o caderno de campo perto de si. Ainda é uma fala.


As entrevistadas começavam dizendo como “tudo começou”, quando seus pais notaram que não eram “meninos normais”, ou que “desde sempre” se interessaram por brincadeiras de meninas, até estarem suficientemente envolvidas para se esquecerem de explicar sua condição, ou de falar apenas sobre ela – embora não exista nenhum momento, nas histórias de suas vidas, em que tal condição não tenha sido percebida como influente. Digo “percebida” como influente porque não se nota à primeira vista a influência que uma condição “normal” tem nas relações sociais, o que é bastante difícil de problematizar. Foi a sua exclusão da “normalidade” que tornou nossas informantes suficientemente sensíveis à importância do gênero em todas as etapas de sua vida.

Mãe lê no caderno o parágrafo seguinte, como em uma primeira leitura.


Ele olha para a gente, vê que a gente é bonita-feminina, né. E daí ele quer assim fazer o programa, daí a gente faz, trata o homem bem. Vai no motel, vai no serv-car, às vezes vai na rua mesmo, vai em qualquer cantinho, se é escorinha, rapidinho mesmo. Não sei por quê, os homens não são acostumado assim a... eles gostam da feição feminina da gente, né, mas eles gostam também do órgão sexual da gente. Eles gostam pelo menos de pegar para eles ver que é, entendeu? Que eles não acreditam, muitos não acreditam. “Nossa, mas você confunde mesmo”. Daí não sei se é isso que envolve um clima assim diferente, um tesão diferente, sei que a gente faz o programa rapidinho.
Aqui acabou a fita. Mas eu ainda dizia: Cerca de dez, quinze minutos você se livra de um homem. Eu quanto mais rápido me livrar de um homem melhor, né. Ter que ficar aguentando os pesos na gente.
Ah, minha juventude.

Mãe sorri e põe a língua pra fora. Está pintada de amarelo.

Manu 1 consegue resgatar o caderno. Lê:


MANU 1: Não existe um “sujeito” que antecede o social.

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