domingo, 13 de junho de 2010

os limpos e os sujos

(meio porque estava nos rascunhos há décadas)

Ele tinha dito a mesma coisa.

– Seus peitos são bonitos. Eles não são tão pequenos.

Eu sorri.

– Mas ela sabe!

– Teu pau também, não é tão pequeno.

Mentira, eu não disse.

Eles leram um livro igual, por isso o segundo não me enganou.

– Eu fiquei um ano e meio esperando pra te beijar. Podia passar a noite inteira só te beijando.

Eu ouvi isso em maio e ouvi em outubro, só que ele disse três anos. Eu dei uma escova de dentes pra cada um, já que ele e ele apareceram na minha casa me beijar sem escovar os dentes.

Eu achava que merecia coisa melhor, achei por um ano e meio, achei por três anos esperando e não consigo mesmo acreditar no que aconteceu em outubro e maio.

Enquanto eles esperavam, namorei dois que eram realmente limpos. Eles ficavam trinta segundos beijando meu rosto e minha cabeça depois e saíam da cama pra ligar o chuveiro. "Fica mais meia hora abraçado comigo", eu falava com dignidade. Eles voltavam bonzinhos, com suas bocas de buceta e pasta de dente, nem pareciam precisar de um banho.

Um furou minha parede. Foi a única vez que ficou bonito de camisa regata, ele era um burocrata com fetiche operário. No bar eu gritava: "Camisas regatas", e minhas amigas em corinho só pra me agradar: "não passarão!". Furou tudo torto, depois ficamos duas vezes seguidas três horas fazendo sexo, ele sim sabia me comer e aprendeu direitinho tudo o que eu ensinava. Aprendeu a beijar como uma mulher e fazer sexo oral como uma mulher e era por isso que eu o recompensava com o pau na minha boca sentada na cara dele gozando e fazendo esforço pra ninguém se machucar.

O outro eu amei e passei a mão na cabeça e continuei com ele até ser impossível. Nunca dormimos juntos, apneia, eu ficava a noite inteira acordada com medo que ele morresse, contando 123456789101112131415 segundos antes do ronco. Então eu o acarinhava e dizia “respira, meu amado, minha alma, meu coração” e ele ia sonâmbulo e irritado se deitar no sofá.

Os namorados eu olhei feliz quando ouvi “gostosa” porque era preciso comer eles fundo e com força com pernas extras pra ouvir um gemido que fosse, eles sim eram limpos, eles eram quietinhos. A sujeira era admirável.

– Mas se você mudasse de ideia e namorasse alguém esse ano, não ia ser comigo.

– Não. Em outra época eu podia ser pega de surpresa, não a essa altura.

Ele desconcertado, com ódio. Ele relinchava sobre mim como um cavalo numa caverna e eu tive que ensinar ele a escovar a língua. Ele e ele ficaram com a impressão de que eu queria que fossem embora porque a atmosfera de manhã era de ressaca. Ele fazia o ar ficar meio sujo e ele me disse gostosa com a boca cheirando a buceta e cigarro, buceta e banana. Ele raspava as bolas que ficavam com os pelos meio crescidos como ele deveu se sentir quando lambeu minha perna aquela noite sobre a mesa. Ele eu nunca vi tomar banho e ele tomou uma vez no segundo encontro quando eu disse que estava menstruada e a gente só podia fazer no chuveiro. Por isso que o meu preferido foi ele.


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