sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

caro encenador radical,

Redondamente óbvio, como diz Gabizinha, o fundamental no teatro é o público, como você diz. Isso é uma coisa que não posso ser o tempo todo. Eu só posso participar do teatro com o que sou, uma pessoa que ouve mas também orquestra fonemas. Foi através deles que eu entrei no teatro.

Eu acredito na palavra como possibilidade artística de remundo, não só como lugar do poder.

Quando ninguém mais percebia o horror da madre superiora humilhar o porteiro, eu pertencia aos livros. Quando adiava mais uma vez o plano de fugir de casa para o dia seguinte, ainda existiam histórias para a minha tarde. Ler fez me falar tão bem e entender tão prontamente que me tornei a melhor atriz do colégio. Quando meu primo tentou me estuprar e eu tinha certeza de que meus pais iam dizer que a culpa era minha, e eu tinha certeza de que o delegado de Marmeleiro diria que fui eu que entrei no carro dele, eu soube contar o que tinha acontecido tão bem pra minha irmã que pude fazer alguém viver isso comigo. Quando anos depois, na faculdade, meus pais disseram o que eu tinha adivinhado, tinha meus próprios textos para enfrentar e o plano de trabalhar tanto até me diluir no mundo. Quando de alguma forma permiti que minha fala se tornasse enrolada e minha voz sufocada, continuei elaborando gestos para ouvir. Perdi e reencontrei teatro.

Sim escrever é uma forma de trabalhar coletivamente com as atrizes. Meu teatro não pode ser “tudo, menos dramaturgia”.

Que limites a anticaretice impõe? Sei que quando você me viu lendo Mimesis, quase desistiu de conversa. Quero que você pense num erudito homem branco europeu, durante a Segunda Guerra Mundial, sem sua biblioteca, analisando livros que sabe de memória. Fazendo uma arqueologia de si, vivo num mundo que não ia mais existir.

Sou grata por ter nascido a tempo de enterrar a história universal, mas tem muito para mim nas últimas palavras do Realismo – do projeto de conhecer as “forças da história” que podiam ser transformadas pelo “homem”.

Daí eu escolho como dar novos textos ou, se quiser, os mesmos. Tomai e comei, este é o meu teatro que será derramado por vós e por todxs.