segunda-feira, 30 de novembro de 2009

sobre violência de gênero

medo da bola?

Escrevi este textinho para um material didático do Núcleo de Gênero e Diversidade Sexual da SEED/PR, sobre minha experiência como bissexual na escola.

Algumas mentiras são fáceis de contar. Na escola, logo que percebi que algumas crianças (e não elas) me odiavam porque eu tirava notas altas sem estudar (eu prestava atenção na aula, o que eram quatro horas por dia), principalmente em disciplinas como Física, comecei a mentir que tinha varado noites em cima da matéria. Mas eu não precisava mentir na prática, não precisava gastar todas aquelas horas com a mentira, e acreditava que mentir era um ato de humildade. Assim escapei de um ódio.

quanto à minha sexualidade, não saberia por onde começar. O que era isso que eu tinha que esconder, e que quase ninguém percebia? Eu era chamada de “sapatão” pelas meninas que se atropelavam aos berros no handebol. O que se pode esperar de uma tentativa de “discrição”? Que a pessoa não seja percebida, que seja invisível, que não exista. Tudo o que eu consegui com meu esforço de invisibilidade foi uma cifose que dói até hoje.

Por isso tento alinhar os ombros quando hoje alguém bate na mesa para dizer: “bissexualidade? Não acredito!”. Não existe mais como alguém dizer para mim mesma que eu não existo. E, embora eu seja muitas outras coisas além disso, continua doendo.

Na sexta e na oitava séries, talvez eu tenha sido percebida como lésbica pelo resto do colégio, mas não dizer nada na minha frente era uma prática bem comum nesse tipo de caso, no colégio de freira. Talvez tenham percebido por conta de dois meninos que se interessaram por mim. Um puxou aplausos depois de um monólogo que apresentei até que o auditório da escola se levantou, coisa que nunca tinha acontecido ali. O outro gostava de livros. Um não usava desodorante, o outro era muito diferente dos garotos macios do New kids on the block, meu ideal máximo de lindeza na época. Hoje, sei que eles tinham as duas maiores qualidades que se pode encontrar num homem: livros e me aplaudir de . Mas, naquele tempo, eu não gostava de meninos tanto assim. Sendo ossuda, usando óculos e aparelho nos dentes, sem sinal de peitos, fico imaginando o que falavam na escola sobre eu me permitir dispensar os bofes, quando tudo o que uma menina aprende é que deve aceitar os homens a qualquer custo.

Eu sabia, porém, que gostava de meninosembora não a qualquer custo. que não lembro de experiências marcantes na constituição da minha alegria com seres socialmente constituídos como masculinos, fora o fato de que alguns podiam manifestar sua afetividade comigo. quanto às meninas, meu desejo foi se revelando por meio de sonhos, e eu lembro, talvez porque houvesse um trabalho de justificação dele para mim mesma, ainda que não tivesse um José como o do Gênesis para interpretá-los para mim. Aos 9, e depois aos 13 anos, e então aos 15-16, embora tenha me permitido viver isso aos 17. Por que eu não preciso me lembrar das situações em que meninos que me atraíram, se era solicitada o tempo todo a eleger um para colocar em brincadeiras com os nomes (como SAPINO)?

Embora eu nunca tenha gostado, o Ginásio foi a pior fase para mim na escola, e a pior parte, a Educação Física. Quando encontrei meus amigos, no Ensino Médio, que também gostavam de livros, todos detestavam a Educação Física, embora nem todos tenham sido perseguidos. A gente identificava com muita facilidade o modelo de esporte e competição que essa disciplina preconizava naquele tempo. O esporte de alto rendimento que a escola copiava, com seus campeonatos, era “alienante”, como dizíamos, e não como objeto de consumo (“o consenso fabricado”), mas para seus próprios e suas próprias protagonistas, que passam a maior parte do tempo com sérios problemas de saúde, tendo que se submeter a cirurgias, para vender tênis americanos fabricados nos países pobres com mão-de-obra barata, até infantil. Crianças com pendoranarquista” (ainda remetendo ao vocabulário da época) jamais se identificariam com esse modelo.

O que é específico no meu caso foi que eu não tinha bons recursos, como uma bronquite redentora, para escapar da aula, e era perseguida. E essa perseguição deixou de ser porque eu era “monga” e começou a ser porque eu era “sapatão”. Quando tive uma professora não entrava na onda, berrando “você tem medo da bola?” como um trovão, eu jogava bemmas as capitãs arremedavam meus gestos de rebatedora, porque ao que tudo indica eu desmunhecava. Quando o esporte era individual, conseguia correr mais tempo do que qualquer menino ou menina sem perder o fôlego. Mas era excluída, e o escopo dessa exclusão estava aumentando. Tive sorte em mudar de colégio, mas até quando vai ser preciso sorte por esse tipo de agressão ser referendado pela instituição escolar?

Lembro da primeira vez que vi impressa a expressãoopção sexual”, aos 13 anos de idade, num especial sobre homossexualidade da revista Veja – no meio em que vivia, isso era quase informação de ponta. Tinha uma foto de uma mulher sentada em um balanço, os cabelos com permanente, e o depoimento de que fez amor com outra mulherpor curiosidade” às vésperas do casamento. Teve seu primeiro orgasmo e largou o noivo. A despeito de minha péssima memória, lembro que fiquei impactada com um trecho: “Meu pai me perguntava como eu podia ser lésbica, se eu usava batom e era feminina”. Eu nunca tinha ouvido falar dessa possibilidade. Lésbicas eram as Outras. Eu achava que era muito reprimida sexualmente pela Igreja Católica e que os sonhos com meninas eram uma forma de amar meu próprio corpo – levei essa teoria até os 16 anos. Percebi que era coisa muito importante fazer o mais cedo possível essa tal de opção sexual e me olhei no espelho para dizereu sou heterossexual”. Se o espelho pudesse responder, diria: “no futuro nós ainda vamos rir muito dessa história”. Hoje não se usa mais esse termo, e embora tenha achado aquela utilidade consoladora nele, pressentia que não havia essa opção. Pelo menos não para as outras, as meninas que eram lésbicas e nem suspeitavam disso ainda (?).

Foi um choque quando justamente elas pararam de me chamar de “monga” na Educação Física e começaram a me chamar de “sapatão” – isso porque eu também tinha atribuído uma sexualidade a elas, e embora nunca tenha enunciado, esse é sempre um exercício cruel. Minha mãe dizia para eu ignorar provocações, e era o que eu tentava fazer. Hoje sei que isso é um erro, mantém tudo como está, pode piorar, e por isso é preciso oferecer às crianças possibilidades de autodefesa. Uma menina, em particular, que corria e jogava ainda pior do que eu, escrevia bilhetes na sala de aula com a “acusação”. Ao mesmo tempo, para me vigiar, procurava sempre ficar perto, o que era absolutamente desagradável. Então, catolicamente, eu tinha pena. Pensava “estão descontando alguma coisa em cima de mim”, assim como as pobres almas que precisam ficar estudando a semana inteira para uma prova de Física. Não suspeitava o tamanho dessa coisa: eu, que era percebida como gay por elas, era o bode expiatório delas, que eram decerto percebidas como gays por suas famílias, e deviam passar por situações que eu nem podia imaginar. Lesbofobia introjetada é quando a pessoa reproduz o mesmo comportamento violento que a exclui. Não significa que as lésbicas e bissexuais sejam “naturalmente” violentas, mas que algumas não têm recursos para lidar com toda a violência que sofrem: odiando a outra, odeiam a si mesmas.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

o homem que assumiu o videogame

A Japanese man in love with his virtual reality girlfriend (SK, profeta).

(isso é da lua de mel)

Sobre a "primeira cerimônia pública de casamento já ocorrida entre homem e videogame", aqui e aqui. Diz que teve padre e tudo.

Valerá passarmos hoje sem aquela do MN?


http://www.direitohomoafetivo.com.br

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

recados de salomão

para a pessoa que entrou aqui à procura de “estou cagando muito por isso”,
eu também.
para quem procurou por “tomar na bunda sete dias”,
deu certo?
e "coleção sabrina a flor de fogo"? mim versão decaída de diane wakoski?

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quem está sentindo falta dos meus posts curtos,
dá uma olhada no twitter do leprevost.

só não me troquem por ele, não não troquem por ele.
torço por meus camaradas, MAS invejo quando têm fã-clubes.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

hoje


Ele pede só meia dose: a mulher contrariada. O japa traz o copo de pinguinha cheio. Nakarocha é um botequeiro experiente. Ele sabe que o bar sempre vence no final.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

a pedra fundamental entregue na porta

Gabizinha fantasiada (?) de bruxa para o Cosme e Damião da Gringolândia.
Tia Sabrina: Olha só, até olheiras a tua mãe fez.
Gabizinha: Eu pedi.
Tia Sabrina faz uma careta medonha.
TS: Eu não preciso nem de maquiagem.
G: É, você já tem olheiras.

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Esse blogue está uma bosta, eu sei. Mas como diria a Xuxa (só no final do programa), olha que dia lindo lá fora. Brincar lá fora é Viver a Vida. Por outra, the outside world is vastly overrated. Gostaria de processar a Xuxa por dano intelectual. Tudo começou muito cedo, e os fundamentos vieram sempre depois.

terça-feira, 10 de novembro de 2009


Vogon Captain
: So Earthlings I present you with a simple choice. Think carefully for you hold your very lives in your hands. Now choose: either die in the vacuum of space, or…
[Dramatic music]
Vogon Captain: …tell me how good you thought my poem was.

A BBC oferece um gerador de poemas vogon. Mas a magia está em que todo mundo já nasce equipado com o seu.