quinta-feira, 27 de agosto de 2009

insônia e canções

por Larissa Selhorst Seixas

Você está desperta de novo, no meio da madrugada. Você sente que não vai mais conseguir dormir, que seu corpo e seus olhos estão tão despertos como se você tivesse acordado de um pesadelo. Mas você não acordou de um pesadelo, você sabe que a insônia sempre vem naquelas noites quando você sabe que terá um longo dia pela frente e num misto de ansiedade e recusa, seu corpo simplesmente não consegue relaxar.

E fica uma música, sempre uma música persistente, tocando tão alto dentro da sua cabeça que você mal consegue ouvir seus pensamentos, ela fica cantando com aquela voz fina e melancólica “are you crawled out of the sea straight into my arms, straight into my arms...”. E você ouve esses pássaros cantando um canto repetitivo, monótono, cantado cem mil, um milhão de vezes a mesma nota esganiçada, como se cantar esse canto fosse o objetivo de tudo, do dia nascer, do planeta girar, do universo se expandir. Como pode esse canto estar aqui, na madrugada dessa cidade de tons pastéis tão sujos, nessa cidade onde estamos presos e soltos, amarrados e livres. E tem sempre esses barulhos na madrugada, barulhos incompreensíveis, parecendo sempre tão próximos daqui, alguém batendo com força pra entrar, alguma coisa sendo misteriosamente arrastada. Você fica um longo tempo atenta a esses barulhos, começa a se sentir um pouco amedrontada, o barulho não para, de tempos em tempos alguém bate numa porta que não é a sua, mas que poderia ser. Então você se lembra dele, dele, dele, ele que você queria tanto que batesse na sua porta, dos olhos tão verdes como se um dos seus pais fosse um farol de trânsito, ele, tão luminoso, tão atraente pra você como se uma força magnética emanasse do corpo dele, como se ele fosse um astro e você um simples asteróide, tão forte e duro agora, agora que agosto está chegando ao fim e ele está indo embora. E você queria poder pedir pra ele ficar, poder encontrar a senha que traria ele pra perto de você, mas isso não vai acontecer, você sabe que não vai, e aquela dor persistente mas suportável continua. Logo ele estará em outro continente, em outro hemisfério, quase em outro planeta, e você sabe que de lá, numa distância segura, ele procurará você de novo, quando chover, quando for inverno, quando a cidade o repelir como a um árabe passado por terrorista, mas então você se lembra que é Paris e quem pode se sentir sozinho em Paris, com todos aqueles fantasmas fabulosos dos grandes homens e mulheres que, como ele, viveram em algum momento nessa Paris que eu desejei tanto também ser minha.

E você se pergunta por que está escrevendo isso, por que se deu ao trabalho de ligar o computador só pra isso, mas, no fundo, você sabe que é por que você queria poder impressioná-lo, a ele e a tantos outros, mostrar que você tem algum talento, mesmo que não tenha, provar que você escreve tão bem quanto aquela mulher de terríveis olhos castanhos que tirou você dos braços do amor. E você queria escrever algo tão bonito, algo doce, amargo, ácido, com todos os sabores, algo comovente, tocante, sufocante, cheio de sombras e vestígios de antigos ou nem tão antigos sofrimentos e rejeições, você queria ser amada por isso, por essa pequena fração de algo doloroso, brilhante, terrivelmente belo que sairia de seus dedos. Mas isso tudo é bobagem, você ainda tem mais uma hora até o despertador tocar e, de repente, aliviada do peso desses pensamentos da insônia, você resolve experimentar fechar os olhos e então, ploft! dorme.


2 comentários:

Larissa disse...

que bonito esse vídeo dela, não tinha visto ainda.
e ela NÃO parece com a mallu magalhães! hehehe

Sabrina disse...

malu! malu! malu!