quarta-feira, 29 de julho de 2009

espíritos tolos x duras verdades

Sobre se apaixonar por estranhos.

Da última vez foi um ilusionista:

– Mas com você não. Com você não tenho nenhuma intuição ruim.
– Eu perguntei das tuas ex-namoradas mais porque não sabia se você é o tipo de pessoa que de repente muda de ideia.
– Você não tá entendendo, Sabrina. O que tá acontecendo aqui [gesto de “entre nós”] é muito sério.

Se o primeiro número parece exigir grande coragem, a dinâmica do espetáculo mostra que é uma estratégia narrativa para aumentar o impacto do segundo: o cara entra numa caixa, dá uma rodadinha, e quando você abre a porta? Um clássico.
A criançada aplaude.
Ordinariozinhos.

Saindo da matinê, encontro uma amiga que investiga esse tipo de fenômeno. Impassível, parece ter passado pro outro lado:
– Isso é assim.
– Senhor de todos os sortilégios!
– Trata-se, evidentemente, de um fundo falso.
– Santo Macunaíma!

A amiga pisa na fronteira entre ilusionista e bruxa:
– Qual dos truques te impressionou mais?
– Eu não acreditei no primeiro, mas queria que fosse verdade. E no segundo logo acreditei, mas queria estar enganada.

Ela levanta uma sobrancelha:
– Ah, não.
– ...
– Você pagou a entrada inteira, não foi?
– ...
– Quantas vezes vou ter que falar pra você falsificar uma carteirinha de estudante?
– Mas aí eu que vou estar sendo desonesta.
– A gente é melhor do que as outras pessoas, por isso temos que nos rebaixar às vezes.

É um raciocínio límpido. Sendo assim, resolvo me aconselhar imediatamente com um ex-namorado, outro canalhinha.
– Quantas vezes já te falei, querida, que o amor não existe, é só um construt...
– Você tá enrolando.
– Pra que saber a essa altura por que não me apaixonei por você? Você vai me achar mais cretino do que já acha.
– Non!
– Prometa que não vai ficar brava.

Num gesto de nobreza,
com sinceridade,
generosamente,
ele tem a empáfia de desfiar uma lista de IMPLICÂNCIAS RIDÍCULAS contra a minha pessoa.

Uma coisa me chama a atenção:

– As pessoas gostam de ser amadas, mas elas gostam, sobretudo, de amar. Se a gente vai ali no balcão pedir alguma coisa, eu também gosto de te abraçar por trás. Como você sempre faz isso, não existe a expectativa e eu acabo não fazendo. O nome do jogo é fort-da.
– Ou síndrome de Estocolmo.
– Olha...
– Se for, queria alguém pra jogar fort OU da.
– Mas é inacreditável! As pessoas, querida, sofrem de amor uma, no máximo, os desavisados, duas vezes.

Finalmente, se eu forçar a barra, ganhei um elogio:

Se variam na casca, idêntico é o miolo,
Julguem-se embora de diversa trama:
Ninguém mais se parece a um verdadeiro tolo
Que o mais sutil dos sábios quando ama.

Cerveja terminada, resolvo ligar para um amigo otimista, que acredita mais em mazia que em ilusionismo. Mas ele também é da opinião de que eu estou errada:

– Como vou me contentar com o truque do caixão se, pelo preço do ingresso, esperava um coelho saindo da cartola?
– Vai que ele está com alguém, que é uma menina ciumenta, mas quando ele voltar pra Curitiba vai poder falar livremente? Por que você não espera ele voltar pra você?

Othello: I have a pain upon my forehead here.

É mesmo, existe o teatro inglês. São oito da noite, hora de parar de perder tempo e voltar pra Sarah Kane. Continuamos a elaborar uma noção de amor incondicional.

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Isso, amigão, é coisa de que não posso reclamar. O funeral tava lotado. Todo mundo com cara de “eu avisei”.

PS: Os diálogos acima são todos de mentirinha, menos o primeiro (hã?).


2 comentários:

Larissa disse...

uau, adorei, sabrinones! muito bom!

Sara disse...

não é um comentário, preciso pensar mais antes de comentar... é só pra avisar que estou pensando (rsrs).