quarta-feira, 27 de maio de 2009

espíritos livres x duras verdades

carteira assinada

Eu era, todos sabem, tão livre quanto freelancer. O que quer dizer pular correndo de minha rede artesanal quando os clientes chamam. Faz doze anos que trabalho fora e não conta nenhum para a minha aposentadoria.
Veja tudo como se não houvesse amanhã porque
Parece um dia tão normal
Mas em cada esquina você pode vacilar*

Há um mês e pouco, peguei um frila numa agência de publicidade. Não é a primeira vez que acontece de quererem me contratar. Né, gente. Mas dessa vez fiquei com a ideia fermentando na cabeça. Bons e tristes motivos, acabei dizendo “sim” para eles.

Logo em seguida, tomei a vacina da gripe, pra poder passar o ano compartilhando escritório com aquela gente.

Fora não estar sozinha, por isso não poder ler em voz alta (a irmã Carolina sonhava poder bater nas crianças com uma régua), outros fatores coercitivos atuam sobre quem trabalha em firma. A idade: alguns anos atrás, eu trabalhava sentada no chão imundo de uma editora idem pra descansar as costas. Hoje já adquiri vergonha. E você não pode se apoiar na mesa pra fazer alongamento (pelo menos na minha posição hierárquica).

As roupas: não pode ir trabalhar de roupão, não pode trabalhar pelada, não pode trabalhar enrolada no cobertor e ligar o aquecedor do lado. Não pode ficar 20 minutos escolhendo a roupa, porque vai chegar atrasada. Não pode pegar a primeira que aparece e sair vestida de azul com marrom. Se bem que eu já fiz isso umas três vezes desde que comecei.

Ninguém fala nada, mas me disseram que tem manicura uma vez por semana. Metade você paga, metade é a empresa. Poderia dizer que meu espírito livre quer minhas presas selvagens. A verdade é que acho anti-higiênico esse negócio de manicura. Tenho nojo. Mas voltei a esconder certos hábitos selvagens, assim que me dei conta deles novamente. O que é pentear os cabelos, depois de já ter cursado uma faculdade inteira? Trabalhar para o capital é mesmo pior que numa ONG cristã, em que alguém, igualmente despenteada, sempre apaga a palavra “travesti” dos teus textos?

Também é verdade que, pelo menos, um pouco de aglomeração significa ter alguém para quem dizer “horrível” toda vez que tira o acento de pára. É por isso que o ser humano busca a coletividade.

Observo alguns minutos o andar em que só trabalham mulheres. Em pouco tempo, penso, vamos menstruar todas juntas. Agora, porém, gripamos todos juntos, antes que a vacina pudesse fazer efeito.

A diferença foi comprar todo o limão necessário com vale-alimentação, que é muito mais charmoso que o seu valor em dinheiro.

Dúvida da vida: como faço pra tocar o foda-se e só fazer o que eu gosto sem pensar no almoço?
Isto, se bem entendo, quer dizer ganhar muito sem nenhum trabalho. Mas, vigário meu, é justamente o emprego que eu procuro, e não acho, há uns vinte e cinco anos, pelo menos. Não cheguei a por anúncios, porque acho feio; mas falo a todos os amigos e conhecidos, obtenho cartas de recomendação, palavras doces, e mais nada.

O almoço é uma questão que envolve tanto aspectos filosóficos quanto digestivos.

Quem trabalha seis horas por dia tem quinze minutos por lei. Corri pra comer durante uma semana, na outra testei o micro-ondas da cozinha que fica dentro da empresa, mas só dava pra comer de pé na pequena bancada de mármore da pia. Descobri a cozinha secreta da crew proletária, que não tem panelas. Trouxe uma frigideira e passei a esquentar a comida no fogão. Não sou um espírito orgulhoso, mas haja paciência.

Dúvida do dia: compro um Marmi Quent igual ao de todo mundo, ou um Marmi Quent Chic, que é mais o meu estilo?

* Faltaram referências proféticas, mas o Google.

2 comentários:

fer disse...

beijo

Marisete Zanon disse...

Eu, com certeza, mandava o emprego pro inferno!!! Muito boa sua crônica.
um abraço

Marisete Zanon