quinta-feira, 9 de abril de 2009

minha ásia

relatório

Tenho uma vizinha japonesa da minha idade. Roqueira. Quando me mudei para o quase-Batel, rua dos michês, ela falou: “Esse prédio é um saco. Aqui tem chinês e velho”. Cigarro e TV são o mal comum.

Os chineses pela manhã têm o mesmo cheiro de xampu que nós, no elevador. Os chineses adultos trabalham pelo menos 16 horas por dia, as crianças umas 6. As crianças pequenas ficam em casa ou sentadas no balcão, onde estiverem trabalhando as mulheres chinesas. Elas procuram dar aos filhos brinquedos de brasileiros, como o celular da Xuxa, que é fabricado na China.

Logo que começam a andar, as crianças chinesas aprendem sua primeira palavra em português. A palavra é “oi”. É com empolgação que gritam “oipara qualquer pessoa não chinesa que olhar para elas. Suas vistas divisam a fronteira.

Os coreanos têm o rosto mais plano e os olhos negros mais rasgados que os dos chineses, provocando um sulco no restante da pele que pode lembrar o risco egípcio do lápis.

Os chineses chegaram há tempos à segunda geração. Alguns deles usam havaiana, barba e cabelo comprido, como Los Hermanos. Os coreanos são quase todos homens, parecem mais jovens com o bigodinho que arredonda seus rostos magros do que sem, são todos da Coréia do Sul e usam camisa social ou pólo. Apenas uma vez vi um coreano de camiseta. A maioria deles tem algum comércio de roupas por perto, onde você pode ser atendido por vendedoras brancas ou observado por seguranças da minha cor.

O comércio dos camelôs, na mesma rua, é de ex-índios. Eles vendem malas de viagem, luvas e meias chinesas. Se você quiser, porém, algo parecido com artesanato indígena, encontrará no miolo da praça ex-índios caracterizados, não na comunhão, mas na porteira dos povos, tentando te gritaroi”.

Chineses e coreanos escrevem em linha, não em coluna como os japoneses. Os caracteres coreanos têm mais traços redondos e costumam lembrar formas humanas, se vistos de ponta-cabeça. Os coreanos têm uma filial da Igreja Católica dedicada a um santo locallocal, da Osório, onde moram, e não do Bom Retiro, onde rezam em coreano.

Chineses não falam honolável, mas falam Mera-Sena. Coreanos preferem falarverme” do que “olha-me”, porque “ola-me”. Quando não te entendem, riem. Quando não querem falar, riem. Por motivos não comunicados, riem. Coreanos são migrantes que riem te olhando nos olhos a maior parte da conversa. Pergunte por quê e eles sacudirão a cabeça, rindo ainda.

Chineses e coreanos freqüentam o pastel chinês decorado com lanternas até as onze da noite em qualquer dia da semana na Voluntários. O meu pastel preferido na Rui-Osório, porém, de um japonês, é freqüentado por negros, brancos, japoneses e pombas, mas mesmo árabes e alemães, que indecifráveis rugem pela praça, passam a falar português quando cruzam a porta do Nakashima. Esse é também o pastel mais barato, e fecha impreterivelmente antes do comércio dos coreanos.

2 comentários:

Anónimo disse...

então os ex-indios são parecidos com as crianças chinesas?

Anónimo disse...

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