segunda-feira, 30 de março de 2009

personal actress

A Fabíola fez uma leitura muito enriquecedora dos meus textos no Realejo, que me deixou muito impressionada comigo mesma. Um deles era cena de uma peça, escrita para ela em 2002. Logo depois, perdi meu HD, mas tinha mandado essa cena para amigas, e mais outra, que não gosto mais, e teve uma que escrevi depois. O fato é que era um monólogo, mas eu não consegui me desfazer de duas personagens a mais.
Segue como ela leu em 2009, sem um monte de rubricas e um trecho político. Pena que não tem filmagem!

A fome atordoa.

Faz da comida a parte mais importante da vida.

[Fala sozinha, mais como quem discursa ou descreve do que como divagação.]

Mas eu não sei lidar com a falta, o meu corpo não pensa tornar-se um testemunho da sua época, ele deseja. Não é fome o bastante para matar, mas é o bastante para que tudo seja opaco, quem como eu não é soldado não agüenta. Eu não tenho controle para anular o meu corpo. Por isso te dou. Toma esse martelo e aplaina, põe para dentro some com o meu nariz, com tudo o que é sobressalente, cada curva, todo dedo para dentro, martela e me torna uma chapa para o teu telhado. que você não quer as minhas mãos para tapar o sol, nem os meus braços para proteger da chuva as tuas costas, me deixa ser telhado do teu corpo.

Um casaco então para a chuva eu seria. Para te dar menos trabalho, para que não tenha que adensar meu corpo numa chapa fina de metal, te poupo da minha substância. Pega essa faca, e fica apenas com minha pele, que vai deixar de ser plena. Gostaria que me esvaziasse, como se cavasse uma cova, mas se é mais fácil não precisa, abandona o meu preenchimento. Pode apenas tirar minha pele como se me desembrulhasse. E se não me quiser como capa, que seja um capacho, que a minha pele aqueça o chão para os teus sapatos, que você não me quer como capote para o teu corpo.

[Aponta para o território entre a nuca e o pescoço.]

Aqui. Desce com o machado em meu corpo uma nova fenda irreversível. Uma racha que não se abra para a vida, porém. Mas que me , desta vez, à escuridão.

4 comentários:

Anónimo disse...

e aí ele diz pra ela:
deus me dê fenda...


haha

Geverson disse...

Ah, promova mais desses "saraus"... ou ensaios...

Larissa disse...

porra, esse texto é muito bom! gosto demais dele!

Albert Nane disse...

gostei inteiro sim sasá. não lembro pq não pus inteiro. é um ótimo texto. um bj