sábado, 21 de fevereiro de 2009

além do mais, mudei a frasezinha em homenagem sem aspas ao L.

assediando godot

Fim de tarde. Meio da conversa.

SENHORA A: Com o quê, você e o senhor G conversaram de fundar um meu fã-clube.

MADAME S: Claro que são formas muito diferentes de pagar pau...

SENHORA A: Por favor, prefiro não conhecer esses detalhes.

MADAME S: Logo agora que eu queria te dar uns detalhes. Mas queria dar uns detalhes bem dados.

SENHORA A: Socorro! Como andam esses meninos! Muito, muito perigosos.

MADAME S [faz um ar experiente]: Perigo... é como os garotos me chamavam no Ensino Fundamental.

Chega sr. G.

SENHOR G: Conversavam, então, sobre o fã-clube...

MADAME S: Por certo que sim!

Sr. G senta-se ao lado de sra. A, que desse modo fica entre ele e mme. S.

SENHOR G: O que achou da idéia, excelentíssima senhora A? [beija sua mão]

SENHORA A: Tenho que ir ao banheiro [levanta-se].

SENHOR G: Ela vai fugir de novo pelos fundos.

MADAME S: Esse bar não tem porta dos fundos. Eu averigüei antes do convite.

SENHOR G: Cumpriu a missão com rigor?

MADAME S: Minuciosamente. Mas olha, ela está saindo da cozinha escoltada.

SENHOR G: O rosto todo sujo de chocolate. Pelo jeito ela meteu a mão numa daquelas tortas que vinha cobiçando.

MADAME S: Pena, tanta coisa aqui para...

SENHOR G: Por favor não complete a frase.

MADAME S: Olha , não olhe agora. Pelo menos não vira o pescoço pra olhar.

SENHOR G: Não olho.

MADAME S: Ela tá se pegando com a cozinheira fora. E tão se pegando muito.

SENHOR G: Aquilo não era uma escolta?

MADAME S: Pelo jeito, um disfarce. A mão da cozinheira foi do braço dela pra cintura assim que passaram da porta.

SENHOR G: se conheciam, decerto.

MADAME S: Que descaramento.

SENHOR G: Sobramos nós dois, agora.

MADAME S: É.

SENHOR G [baixando a voz]: E o que fazemos?

MADAME S: Chamamos sua esposa pra tomar mais uma com a gente.

SENHOR G: Foi nisso que você pensou quando não averiguou a parte da cozinheira?

MADAME S: Tenho que ir no banheiro.

A janela do lavabo é pequena e estreita. Mme. S, porém, pratica artes marciais e saberá como atravessá-la.


Além de plágiu,
essa é uma história de mera ficção etc.

Porém, tem alguma coisa aqui que acho que roubei sem querer. Quem me ajudar a identificar, é porque tem cultura.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

espíritos livres/ duras verdades

Na ditadura antigordura.

Tarde demais para o trabalho, cedo demais pra ir pra hidro: nove e meia da manhã. Fico na cama ouvindo, pela oitava vez na semana, The songs of Leonard Cohen. Era pra ter sido uma Traveling lady, penso ao mesmo tempo em que me espreguiço e bocejo. Mas alguma coisa me impediu.
Levanta, menina, digo pra mim mesma. Não dá tempo de se concentrar no trabalho, mas você pode colocar a roupa na máquina. Não me chamo de menina, aliás. Desde que li um texto teórico que mostra como as mulheres são violentas consigo mesmas, e me reconheci, só chamo a mim mesma de querida. Mesmo quando vejo que joguei o maiô na máquina ao invés de vesti-lo.
Ora, querida, olha só o tamanho da cagada que você fez!
Desde que conquistei a liberdade de alugar sozinha este imóvel barulhento, meu sono nunca mais foi o mesmo.

Onze e dez estou na piscina, com a certeza de não ter esquecido nada. Vejo as alunas chegarem, mas não olho muito. Tive que me curar de uma fobia das senhoras submersas calçando meias pra poder participar desta egrégora animada. Descem a escadinha com seu equipamento antiderrapante, uma após a outra.
Esse exercício machuca menos, tem menos emoção. Uma das coisas que eu mais gostava no Kung Fu era a concentração que as aulas exigiam. A cabeça esvaziava ainda mais. Na hidroginástica é diferente. Tenho que ser acordada por gritos de ânimo:
– Abraça a água! Abraça a água!
Ou pela voz pausada da profe:
– Exagera o movimento!
Às vezes, nem isso. Enquanto penso nessa crônica, por exemplo:
– Ei! Sabrina! Coloca a caneleira amarela!
– Mas é muito feia.
– O quê?
– É que, professora, a minha ciática...

Um exercício aeróbico traz seu efeito inevitável: o emagrecimento.
Tinha deixado um espelho grande na entrada do quarto, pra me ver marchando pelada meu orgulho gordo – pra me acostumar, opor minhas formas ao padrão de beleza que é divulgado o tempo todo. Agora, quando entro no quarto e vejo minha barriga Homer Simpson virar uma barriga Maya desnuda, principalmente depois de fazer cocô, uma alegria derrotista é formulada rápido demais pro meu superego:
– Uh, lá em casa!
É quando lembro que já estou em casa. “Mas amo tudo que tenho” poderia ser meu lema, caso eu fosse um caminhão.

Hora de sair da água. Hora de dar tchau. Se eu fosse um teletubbie, pulava. Como sou uma aluna da hidro, tenho que dar um beijinho na professora. Ela recebe uma por uma na escadinha e seria muito chato se. Tenho doze anos de idade e gostaria que o chão me engolisse pra não ter que tocar na moça com meu rosto melequento daquela água.
No chuveiro, aquelas conversas. Quando era mais nova, tinha a impressão de que as mulheres falavam de depilação e cremes só pra me excluir. Hoje, é natural não participar da conversa. A única vez que tive uma sensação estranha foi num aulão de sábado, com alunos de todas as turmas, quando a professora gritou:
– Olhando pra frente, e não para a coleguinha.
Eu me senti subitamente protegida de uma exposição que nem tinha percebido. Senão tinha aproveitado que já estava com o braço erguido para o exercício e fecharia o punho: no pasarán! Ou: meu sovaco não é mais ideológico que o de vocês.
Mas puxa, é verdade mesmo que a viúva de 70 anos está fazendo a dieta de South Beach? E que a noiva de 25 combinou com o namorado de emagrecer? Queridas, tomem esta chave de ouro!
Resista! Coma! Abaixo a ditadura!
A luta tem um símbolo: FRITURA.


Sigo à risca minhas palavras de ordem. Saio da academia e vou direto comer um pastel. Sou uma mulher de ação, ainda que uma ação de baixo impacto.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

medeia, a sacerdotisa

Tradução em parceria com Miriam Adelman.

Diane Wakoski

Ela está na Casa da Mãe Solteira em Pasadena,

a única menina que lê poesia. Ele escreve pra ela

do internato, ela decora os sonetos de Shakespeare

enquanto se exercita

no pátio poeirento

da Casa.


Magia alguma muda sua vida.

Ela ouve da Assistente Social que

ERROU porque

ainda ama J
não se arrepende de nada que fez por amor

não acredita que é má

não se culpa por desistir do bebê

crê que a vida seguirá seu percurso, assim como

sempre seguiu

não vai falar sobre seus erros.


É o mesmo que estar no deserto,

a vidinha na sala com chão de linóleo,

comendo com garotas estupradas pelo pai,

e garotas que foram pegas, mas ninguém sabe com quem,

e garotas de só 13 anos

e garotas que eram enfermeiras dormindo com doutores

e garotas que queriam esquecer de tudo e entrar pro exército,

garotas todas grávidas e envergonhadas e que sabiam estar vagando por algum deserto, mesmo que a maioria delas,

a maioria de nós, não soubesse

o nome das serpentes do deserto, nem de mariposas como a Dusty

Silverwing, nem

sobre as tocas estreitas das corujas, ou o aroma persistente da artemísia,
quando a noite estava limpa, limpa como a gente sabia que ainda era.


Então, se ela fosse Medeia, quando as cartas dele chegassem

falando como quem não quer nada de encontros com outras garotas,

que não estavam grávidas,

decidiria que não resta mais escolha. Ela

o mataria, e mataria os filhos, e igual à Sacerdotisa

partiria para outro mundo, em sua carruagem tocada por dragões.


Ela desistiu do bebê. Sem remorso. Só os fracos têm

remorsos. Ela voou em sua carruagem com todo seu poder de dragona para Berkeley,

daí Nova York, então o Meio-Oeste, e finalmente esse Café

onde senta contando a lenda, não da tribo,

mas dela mesma, e a despeito do que os outros dizem, ela sabe
que a canção, que essa Dama Andante da
Luz do Dragão

em busca da Lua Prateada canta,

é a lenda de pelo menos metade

da tribo.


Toque seu instrumento, Pistoleiro.
Aclame, Maximus.
Ascensão é queda, Dr. Paterson,
Oh, Amor, poeta caolho, aonde me leva agora? Ninguém

deveria

Estar na Casa da Mãe Solteira. Verdadeira Terra

Desolada.

Essas cartas, que não são cantos, que não são canções, vão para o Craig,

Cavaleiro da Luz do Colibri,

pro Jonathan que entende o mito da mulher que

"Dorme nas

Chamas"
Para o Homem de Aço, meu marido, que me ama nas noites em sua

invisível Capa

de Escuridão,
e para todas as mulheres, a outra metade da tribo,

pra Eva que se atreveu comer a maçã, eu escrevo essa carta

e eu também assino

Diane

A Dama da Luz.


MEDEA THE SORCERESS

She is in the Home for Unwed Mothers in
Pasadena, the only girl who reads poetry. He
writes to her from his prep school, and she memorizes
the sonnets of Shakespeare as she takes her exercise
on the dusty, scrubby grounds of
The Home.

No enchantment changes her life.
She is told by the Social Worker that she has
FAILED because
she still loves J
she doesn´t regret doing anything for love,
she doesn´t believe she is bad
she doesn´t regret giving up her child
she believes her life will go on, the same as it has
always gone on
she won´t talk about her mistakes.

This is the same as being on the desert,
this life in the linoleum-floored room,
eating with girls who have been raped by their fathers,
and girls who got caught but didn´t know with what man
and girls who were only 13
and girls who were nurses sleeping with doctors
and girls who wanted to forget everything and join the army,
girls who were all pregnant and ashamed and who knew they were
wandering some desert, though most of them,
most of us, didn’t know
the names of desert rattlers, or moths like the Dusty
Silverwing, or
about the tiny burrowing owls, or the lingering scent of
sagebrush
when the night was pure, pure as we knew we still were.

So, if she were Medea, when the letters came
talking casually about his dates with other girls, un-pregnant
girls,
she decided that she would have no choice. She
would kill him, and her children, and like the Sorceress
leave for another world, in her chariot drawn by dragons.

She gave up her baby. No regrets. Only the weak have
regrets. She flew in her chariot with all her dragonlady power to Berkeley,
then New York, then the Midwest, and finally to this Café
where she sits telling the tale, not of the tribe,
but of herself, and in spite of what others say, she knows
that the song that this Silvery Moon Questing Lady of the
Dragonlight sings,
is the tale for at least half
of the tribe.

Strum, Gunslinger.
Hail, Maximus.
Ascent is descent, Dr. Paterson,
O, Love, one-eyed poet, where are you leading me now. No
one should
Be at the Home for Unwed Mothers. That is the real
Wasteland.
These epistles, not Cantos or songs will be for Craig,
Knight of Hummingbird Light,
for Jonathan who understands the myth of the woman
“Sleeping In
Flame”,
For Steel Man, my husband, who loves me at night in his
invisible Cap of
Darkness,
and for all women, the other half of the tribe,
for Eve who dared to eat the apple, I write this letter
and sign myself,
Diane

The Lady of Light.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

rotação

Pra Larissa, de alguma forma.

Acordo de mão dada contigo,

dois meninos que fizeram coisa errada.

Feito homenzinhos Falcon de lábios entrelaçados

fingem ter sido jogados nessa posição por acaso.


O dia porta a verdade,

intima para o trabalho.

Detém o passeio de meus dedos

em teu ventre de pêlos,

selva minúscula.

Segue esquecido do canto que tua boca

compôs em minha garganta;

louvor fortemente entoado da descoberta do meu pau.

Nos cobre o dia,

roupa sobre hematoma.


Por que amanhece?

De manhã eu tenho um nome,

de manhã você tem um marido.

Sob a luz do escritório, o lombo fustigado pela cadeira.

Corpos demais sofrem o Sol trancafiados.

A luz faz rodar a esteira cansada dos tempos modernos,


e alimenta em silêncio as frutas que provaremos no leito.