quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

incompreendido

prepare tudo que é seu
veja se nada você esqueceu
porque amanhã vamos pra rua fazer
fazer uma tremenda anarquia
pintar as ruas de alegria
porque
quem manda hoje somos nós mais ninguém
e não ligamos pra quem vai nem quem vem
atrapalhar
a quem nos queira atrapalhar

(ronnie von, príncipe da jovem guarda e mãe de gravata)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009


– Além de baixinha, é bêbada.
– Pequena e alcoólica.


– Eu diria que você sabe se colocar em bons termos consigo mesma.

em tempo

Nota pública
Nós da Rede Religiosa de Matriz Africana do Subúrbio (RREMAS[1]), vimos a público manifestar nossa indignação diante de mais uma brutalidade que a ignorância popular atribui a nós como prática religiosa. Mais ainda, nos indignamos com o fato em sí que vitimou um ser pequenino no tamanho, mas grande em sua essência , inocente e por tudo isso sagrado para nós: uma criança (que até o nome esqueceram e que está sendo chamado “menino das agulhas”); vítimada pela insanidade de pessoas visivelmente descompensadas.
Tão pasmos como toda população, temos acompanhado as reportagens esperando para ele um desfecho positivo e que os meios de comunicação acorram às nossas lideranças religiosas para alguma declaração, como é de praxe se fazer, em circunstâncias como esta , quando um importante segmento da sociedade é citado ou responsabilizado.
Vimos a fala do médium Divaldo Franco, por quem devotamos respeito; contudo, não pode ser considerada como bastante a ponto de não se buscar ouvir outros segmentos espiritualistas, principalmente, o citado pelo reu-confesso.
Preocupados com o crescimento da calúnia, estamos nos antecipando, para que não cresça sobre nós a intolerância religiosa ou pior, o ódio religioso, já tão fortemente disceminado por determinados setores neopentecostais, através de suas tão públicas e “notórias” atividades mercadológicas.
Portanto, declaramos que nunca houve e não há em nenhuma das nações religiosas, de culto a ancestralidade africana e brasileira, as quais chamamos de “religiões de matriz africana”, ritual, de qualquer objetivo, envolvendo sacrifício de vida humana, seja qual for a faixa etária, muito menos haveria da infantil, que é por nós tão respeitada.
Vale ressaltar, que não há em nenhum dos sacrifícios rituais que realizamos com animais, requintes de crueldade. As famílias brasileiras consomem todos os dias, toneladas e mais toneladas de carne animal sem questionar quais os métodos adotados para abatê-los e, podemos garantir que não são nada generosos, boa parte deles são extremamente cruéis. A dispeito do que tratamos aqui, consideramos uma ressalva importante, pois que completa a informação e se antecipa as argumentações, hipócritas e amoral em sua maioria , de que sacrificamos animais.
Ainda vale outra ressalva, para o fato de que mesmo se uma das acusadas fosse Iyálòrixá (“Mãe de Santo”), não se poderia condenar o candomblé; pois que quando um médico erra, não se condena toda a médicina. Assim como o erro de líderes religiosos, não se atribue às suas matrizes religiosas.
Não há histórico nem lugar para esta monstruosidade que insistem em dar visibilidade no discurso ignorante e não inocente (porque busca se eximir da responsabilidade) , do crimonoso, de que uma das acusadas usava “os caboclos e orixás”, para sua prática assassina e doentia. Os caboclos, orixas, voduns e inquices, de certo vão cobrar dele e de quem mais afirmar tal barbaridade. Eles são seres de luz e na luz, responsáveis pelo equilíbrio da terra, das pessoas e de suas relações.
Por fim, conclamamos a todas as organizações dos “povos de santo” a quem preferimos chamar de “povos de terreiro”, da Bahia e de todo o País, a se manifestarem, para que mais esta injustiça _ que aliás, já desponta em outros estados, a exemplo do Maranhão, como “magia negra” e, aí automaticamente afirmam autoria a nós _ não se atribua a nossa tão bonita religião. Embora, diga-se de passagem, nada tem haver o termo “magia negra” com o conhecimento da magia africana, passada de geração em geração há milhares de anos, que manipula os elementos da natureza para nos equilibrar diante dela e nos religar a ancestralidade, lembrando que a humanidade surgiu na África. Vale destacar, que magia negra é coisa de séculos remotos da Europa.
Axé.
[1]Comissão Organizadora: Ilê Axé Torrundê / Ilê Axé Odetolá / Ilê Axé Oyá Deji / Ilê Axé Omin Ala / Ilê Axé Gedemerê / Terreiro Gêge Dahomé / Ilê Axé Iyá Tomin / Ilê Axé Ogodogê / Ilê Axé Logemin – contatos: 9966-6506 / 3394-8184,Guilherme de Xangô - Bàbálòrixá; 9908-5566 / 3408-1455 Valdo Lumumba-Ogan; 8716-5833 Edvaldo Pena - Huntó; 3521-1423 Dari Mota – Bàbálòrixá; 3394-8175, Wilson Santos - Bàbálòrixá.


Saudações Quilombolas
e Paz na Terra: nossa casa!
SEJAMOS CIDADÃS E CIDADÃOS ATIVOS,
TOME UMA ATITUDE.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009


Há ideias e coisas e pessoas demais, direções demais para ir. Eu estava começando a acreditar que a razão por que conta tanto se importar apaixonadamente com alguma coisa é que isso reduz o mundo para um tamanho mais administrável.

Susan Orlean


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

missões secretas

A Gabizinha vive pedindo pra eu dar missões secretas pra ela.
Normalmente descamba pra "terrorismo poético".
Hoje eu pediria pra ela desligar a televisão na tomada, atrás da gigantesca estante, de modo que meus pais tivessem preguiça de empurrá-la. Só que sem ninguém perceber, como uma boa espiã.

Desejo que atualizem seus blogs pra me entreter, já que eu ainda trabalho semana que vem. E reinicio a campanha pelo blog do Maikon Kempinski, alguém que compartilha comigo o verdadeiro significado do Ximbalaiê e do Sei lá, além de ser provavelmente a única pessoa que vai ler isto na próxima semana. =)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

feliz 2009!

– Ei, a gente é velho, tá em público. Olha só. Tira a. Mão da. Minha. Bunda.
– Mas eu te amo!
– Diga o meu nome.
– Que coisa mais... burguesa!
– Diga o meu nome.
– Você não conhece o verdadeiro significado do amor!
– Eu vou te dar mais uma chance. Meu nome é:


– A egocêntrica Sabrina Lopes me obrigou a decorar seu nome.
– Mas a Sabrina pega homem?


– Daí, Sabrina. O que foi aquilo ontem?
– Comédia, o único jeito sensato de reclamar.


A SABRINA deseja a todas um 2010 mais quentinho e com menos pontuação.



(droga, ela esqueceu de novo de mencionar dinheiro)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

adaptação ii

Antes de mais nada, dividir com vocês o que sei melhor que o dicionário. Em uma rubrica, beat significa pausa curta motivada por hesitação ou dúvida.

KAUFMAN: Eles vão encontrar a gente.
DONALD: Acho que não.
KAUFMAN: Eu não quero morrer, Donald. Eu desperdicei minha vida. Meu, eu desperdicei.
DONALD: Isso não aconteceu. E você não vai morrer.
KAUFMAN: Eu desperdicei minha vida. Eu te admiro, viu, Donald? Eu gastei minha vida paralisado com o que as pessoas iam pensar de mim, e você – você é indiferente.
DONALD: Eu não sou indiferente.
KAUFMAN: Não, você não entendeu. Eu falei como um elogio. Sério.
(hesita)
Teve aquela vez no colégio. Eu tava olhando vocês da janela da biblioteca. Você tava falando com a Sarah Marsh.
DONALD: Meu Deus. Eu era tão apaixonado por ela.
KAUFMAN: Eu sei. E você tava flertando com ela. E ela era mesmo um doce contigo.
DONALD: Eu lembro disso.
KAUFMAN: Então, quando você saiu, ela começou a tirar sarro de você junto com a Kim Canetti. Foi como se elas estivessem rindo de mim. Você nem imaginava isso. Você parecia tão feliz.
DONALD: Eu sabia. Eu ouvi as duas.
KAUFMAN: Então como que você parecia tão feliz?
DONALD: Eu amava a Sarah, Charles. Isso era meu, aquele amor. Eu possuía. Nem a Sarah tinha o direito de me tomar isso. Eu posso amar quem eu quiser.
KAUFMAN: Ela achava você patético.
DONALD: Isso era problema dela, não meu. Você é aquilo que ama, não aquilo que te ama. Foi isso que decidi muito tempo atrás.

Kaufman e Donald ficam sentados por um bom tempo em silêncio. Kaufman começa a chorar suavemente.
DONALD: O que foi?
KAUFMAN: Obrigado.
DONALD: De quê?


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

caro encenador radical,

Redondamente óbvio, como diz Gabizinha, o fundamental no teatro é o público, como você diz. Isso é uma coisa que não posso ser o tempo todo. Eu só posso participar do teatro com o que sou, uma pessoa que ouve mas também orquestra fonemas. Foi através deles que eu entrei no teatro.

Eu acredito na palavra como possibilidade artística de remundo, não só como lugar do poder.

Quando ninguém mais percebia o horror da madre superiora humilhar o porteiro, eu pertencia aos livros. Quando adiava mais uma vez o plano de fugir de casa para o dia seguinte, ainda existiam histórias para a minha tarde. Ler fez me falar tão bem e entender tão prontamente que me tornei a melhor atriz do colégio. Quando meu primo tentou me estuprar e eu tinha certeza de que meus pais iam dizer que a culpa era minha, e eu tinha certeza de que o delegado de Marmeleiro diria que fui eu que entrei no carro dele, eu soube contar o que tinha acontecido tão bem pra minha irmã que pude fazer alguém viver isso comigo. Quando anos depois, na faculdade, meus pais disseram o que eu tinha adivinhado, tinha meus próprios textos para enfrentar e o plano de trabalhar tanto até me diluir no mundo. Quando de alguma forma permiti que minha fala se tornasse enrolada e minha voz sufocada, continuei elaborando gestos para ouvir. Perdi e reencontrei teatro.

Sim escrever é uma forma de trabalhar coletivamente com as atrizes. Meu teatro não pode ser “tudo, menos dramaturgia”.

Que limites a anticaretice impõe? Sei que quando você me viu lendo Mimesis, quase desistiu de conversa. Quero que você pense num erudito homem branco europeu, durante a Segunda Guerra Mundial, sem sua biblioteca, analisando livros que sabe de memória. Fazendo uma arqueologia de si, vivo num mundo que não ia mais existir.

Sou grata por ter nascido a tempo de enterrar a história universal, mas tem muito para mim nas últimas palavras do Realismo – do projeto de conhecer as “forças da história” que podiam ser transformadas pelo “homem”.

Daí eu escolho como dar novos textos ou, se quiser, os mesmos. Tomai e comei, este é o meu teatro que será derramado por vós e por todxs.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

está acabando

2009. a maldição do ximbalaiê.

adaptação

69. EXT. CAMPO – DIA
Acompanhamos um inseto enquanto ele zumbe em frente.

LAROCHE (voice-over – só sei chamar de off ou narração)
Há orquídeas que se parecem exatamente com um inseto em particular.

O inseto encontra uma orquídea com que se parece. Ele pousa na flor e começa a mover rapidamente o abdome.

LAROCHE (voice-over. Continua)
Então ele é atraído pela flor, como um amante. Pense nisso. O inseto não tem escolha a não ser fazer amor com aquela orquídea. A flor insiste. E essa atração, essa paixão, é muito maior que qualquer um dos dois. Nenhum entende o significado dessa interação. Mas por causa dela, o mundo vive.
O inseto, coberto de pólen, o carrega, se apaixona por outra flor e a poliniza. Como essa relação se desenvolve? Essa conexão extraordinária? Podemos combater isso? Deveríamos?

O inseto, coberto de pólen, voa embora. Ele se mistura com milhares de insetos que fazem a mesma coisa: voar, zumbir ao redor de flores.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009


– Você está bem?
– Não sei quando isso vai acontecer.
– Por que chora?
– Choro porque posso ser ruim.
– O que olha?
– Olho com os olhos do cu.
– Você peidou.
– Estou ficando igual à minha mãe.
– Amanhã é um dia importante.
– Não sei quando isso vai acontecer.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009


– caras de touca são potencialmente bandidos. boné e touca é duplamente suspeito. andar de capacete já é dar voz de assalto. caras de mochila não são assaltantes, não andariam com algo que torne fácil identificar ou pegar...
– por isso, quando alguém rouba uma mochila, ele deixa automaticamente de ser um ladrão.

heróis do xix

[Diálogo em que o casal de namorados combina a roupa com que irá à orgia.]

[Longa descrição das pinturas e da decoração da casa. Depreende-se que o Renascimento Oriental teve sua grande dose de futilidade.]

[Enumeração de prazeres masculinos.]

[Descrição detalhada do maravilhoso jantar.]

[Lista de homens, travestis, suas linhagens e profissões.]

[Anedota sobre a tolice das mulheres, que se contentam com a jura de que são “a” única (recorrente).]

[Proezas anais.]

"– Não, é melhor você não fazer isso – disse o Dr. Carlos, que rastejava ao meu lado.
– Por quê, o que há ali para se temer?
– É um crime contra a natureza – disse o médico, sorrindo.
– Na verdade, seria pior que sodomia, seria frascaria – disse Briancourt.

Como única resposta, o sipaio lançou-se com o rosto voltado para cima na borda do sofá, com sua bunda erguida para nós. (...) "

[O trabalho de lubrificação é apropriadamente feito por um maître de langues.]

"Outra pessoa havia tomado a garrafa e lambuzado-a com a gordura do pâté de foie gras, e depois começou a enfiá-la. Inicialmente, ela não parecia capaz de entrar, mas com o sipaio esticando as bordas com seus dedos, e o operador virando e manipulando a garrafa e pressionando-a lenta e constantemente, ela finalmente começou a deslizar para dentro.

– Ai, ai! – disse o sipaio, mordendo os lábios. – Está apertado, mas até que enfim ela está dentro.
– Estou machucando você?
– Doeu um pouco, mas agora já passou. – E ele começou a gemer de prazer.

Todas as pregas e protuberâncias haviam desaparecido e a carne das bordas agora apertava fortemente a garrafa. (...)

A mão do manipulador estava convulsa. Ele deu um forte safanão na garrafa.

Estávamos todos sem fôlego de excitação, ao ver a intensidade do prazer que o sipaio sentia, quando de repente, em meio ao perfeito silêncio que se seguia a cada um dos gemidos do soldado, um leve som trincante se ouviu (...). "

[Enunciação de um salve-se quem puder.]

[Curta descrição de procedimento cirúrgico.]

[Curta narração de um suicídio por honra.]

Oscar Wilde [atribuído a ele e a seu círculo de amigos]. Teleny, ou o reverso da medalha. Tradução de Francisco Innocêncio. São Paulo: Hedra, 2008.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

“Agora estou com medo. Porque vou te dizer uma coisa. Espere que passe o medo./ Passou. É o seguinte: a dissonância me é harmoniosa”

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

achei numa mensagem velha

o dia começa cedo
a alegria vem no meio
é quando lembro de ver
se há algo no hotimeio

é quando encontro o marco
rapaz teimoso, que feio!
e me pergunto por que
não me escreve no gimeio?

o mundo está tão difícil
que às vezes nem eu mais creio
o amor é macio e tanto
quando ele me escreve imeio

amanhã




quarta-feira, 2 de dezembro de 2009


– Mas por que você quer traduzir um poema que já foi traduzido?

Professores fazem cada pergunta. E eu tinha lido quatro versões da Tarefa do Tradutor.

a morte de neide mota

Ano passado, sua clínica de planejamento familiar foi estourada em Campo Grande/MS. Dez mil mulheres ameaçadas de processo judicial, com os nomes expostos na internet. A ameaça de uma pena maior para as que não confessassem levou algumas a assumir o crime de aborto. Foram punidas com trabalho voluntário cuidando de recém-nascidos. Uma mulher foi obrigada a levar o filho à delegacia para provar que não havia abortado: ela fez o pré-natal com a médica. O MS não tem atendimento legal para os casos de interrupção da gravidez previstos no Código Civil (estupro e risco de morte da mãe).

Não é um detalhe: a polícia não tem o direito de recolher todos os prontuários de uma clínica. Tem que ter um mandato judicial para cada paciente. Recolher e expor os documentos é violação de privacidade.


No CCR:

(...)

O caso de Neide Mota e de sua clínica de planejamento familiar faz pensar. Neide, entre o Estado e o mercado, chegou a ser procurada para servir como referência e parceria para a realização de abortos legais pelo SUS, o que a tiraria da clandestinidade e, de outro lado, estar envolvida e denunciar o desrespeito aos direitos humanos cometidos naquela cidade. A invasão de sua clínica suscitou perguntas que até o momento não estão totalmente respondidas: por que a visita sorrateira da Rede Globo àquela clínica naquele momento? Como foi possível tanta rapidez entre o programa televisivo e a demanda de ação por parte do deputado Bassuma em acionar o Ministério Público para denunciá-la?? Por que tamanha exposição do processo que envolvia tantas mulheres, significando uma moderna degola de mulheres em praça pública? Como justificar a falta de disposição dos Conselhos Éticos de Medicina em mostrar irregularidades do poder judiciário ao não preservar a confidencialidade dos prontuários médicos recolhidos na clínica pela Polícia? Como esquecer que o poder Judiciário deixou durante algum tempo estes processos ao sabor do vento, sendo manuseados livremente, tendo fichas eliminadas? Como esquecer que algumas mulheres foram “escolhidas” para servirem como “bois de piranha” e assim deixarem o campo livre para a construção do plano maior de aniquilamento da imagem pública de Neide Mota? Como justificar o recuo da Justiça e do Direito neste universo que criminaliza e mata mulheres?


Tudo indicava desde aquele momento que o que se desejava era uma ação exemplar. E foi assim, do começo ao fim. A morte de Neide Mota, capítulo final de outra novela da vida, vai ao ar praticamente ao mesmo tempo em que a rede Globo circula um novo sermão eletrônico, ou seja, capítulos de sua novela das 8 que incentivam a culpabilização de todas/os as/os telespectadores que chegarem a pensar no aborto como um direito.

(...)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

sobre violência de gênero

medo da bola?

Escrevi este textinho para um material didático do Núcleo de Gênero e Diversidade Sexual da SEED/PR, sobre minha experiência como bissexual na escola.

Algumas mentiras são fáceis de contar. Na escola, logo que percebi que algumas crianças (e não elas) me odiavam porque eu tirava notas altas sem estudar (eu prestava atenção na aula, o que eram quatro horas por dia), principalmente em disciplinas como Física, comecei a mentir que tinha varado noites em cima da matéria. Mas eu não precisava mentir na prática, não precisava gastar todas aquelas horas com a mentira, e acreditava que mentir era um ato de humildade. Assim escapei de um ódio.

quanto à minha sexualidade, não saberia por onde começar. O que era isso que eu tinha que esconder, e que quase ninguém percebia? Eu era chamada de “sapatão” pelas meninas que se atropelavam aos berros no handebol. O que se pode esperar de uma tentativa de “discrição”? Que a pessoa não seja percebida, que seja invisível, que não exista. Tudo o que eu consegui com meu esforço de invisibilidade foi uma cifose que dói até hoje.

Por isso tento alinhar os ombros quando hoje alguém bate na mesa para dizer: “bissexualidade? Não acredito!”. Não existe mais como alguém dizer para mim mesma que eu não existo. E, embora eu seja muitas outras coisas além disso, continua doendo.

Na sexta e na oitava séries, talvez eu tenha sido percebida como lésbica pelo resto do colégio, mas não dizer nada na minha frente era uma prática bem comum nesse tipo de caso, no colégio de freira. Talvez tenham percebido por conta de dois meninos que se interessaram por mim. Um puxou aplausos depois de um monólogo que apresentei até que o auditório da escola se levantou, coisa que nunca tinha acontecido ali. O outro gostava de livros. Um não usava desodorante, o outro era muito diferente dos garotos macios do New kids on the block, meu ideal máximo de lindeza na época. Hoje, sei que eles tinham as duas maiores qualidades que se pode encontrar num homem: livros e me aplaudir de . Mas, naquele tempo, eu não gostava de meninos tanto assim. Sendo ossuda, usando óculos e aparelho nos dentes, sem sinal de peitos, fico imaginando o que falavam na escola sobre eu me permitir dispensar os bofes, quando tudo o que uma menina aprende é que deve aceitar os homens a qualquer custo.

Eu sabia, porém, que gostava de meninosembora não a qualquer custo. que não lembro de experiências marcantes na constituição da minha alegria com seres socialmente constituídos como masculinos, fora o fato de que alguns podiam manifestar sua afetividade comigo. quanto às meninas, meu desejo foi se revelando por meio de sonhos, e eu lembro, talvez porque houvesse um trabalho de justificação dele para mim mesma, ainda que não tivesse um José como o do Gênesis para interpretá-los para mim. Aos 9, e depois aos 13 anos, e então aos 15-16, embora tenha me permitido viver isso aos 17. Por que eu não preciso me lembrar das situações em que meninos que me atraíram, se era solicitada o tempo todo a eleger um para colocar em brincadeiras com os nomes (como SAPINO)?

Embora eu nunca tenha gostado, o Ginásio foi a pior fase para mim na escola, e a pior parte, a Educação Física. Quando encontrei meus amigos, no Ensino Médio, que também gostavam de livros, todos detestavam a Educação Física, embora nem todos tenham sido perseguidos. A gente identificava com muita facilidade o modelo de esporte e competição que essa disciplina preconizava naquele tempo. O esporte de alto rendimento que a escola copiava, com seus campeonatos, era “alienante”, como dizíamos, e não como objeto de consumo (“o consenso fabricado”), mas para seus próprios e suas próprias protagonistas, que passam a maior parte do tempo com sérios problemas de saúde, tendo que se submeter a cirurgias, para vender tênis americanos fabricados nos países pobres com mão-de-obra barata, até infantil. Crianças com pendoranarquista” (ainda remetendo ao vocabulário da época) jamais se identificariam com esse modelo.

O que é específico no meu caso foi que eu não tinha bons recursos, como uma bronquite redentora, para escapar da aula, e era perseguida. E essa perseguição deixou de ser porque eu era “monga” e começou a ser porque eu era “sapatão”. Quando tive uma professora não entrava na onda, berrando “você tem medo da bola?” como um trovão, eu jogava bemmas as capitãs arremedavam meus gestos de rebatedora, porque ao que tudo indica eu desmunhecava. Quando o esporte era individual, conseguia correr mais tempo do que qualquer menino ou menina sem perder o fôlego. Mas era excluída, e o escopo dessa exclusão estava aumentando. Tive sorte em mudar de colégio, mas até quando vai ser preciso sorte por esse tipo de agressão ser referendado pela instituição escolar?

Lembro da primeira vez que vi impressa a expressãoopção sexual”, aos 13 anos de idade, num especial sobre homossexualidade da revista Veja – no meio em que vivia, isso era quase informação de ponta. Tinha uma foto de uma mulher sentada em um balanço, os cabelos com permanente, e o depoimento de que fez amor com outra mulherpor curiosidade” às vésperas do casamento. Teve seu primeiro orgasmo e largou o noivo. A despeito de minha péssima memória, lembro que fiquei impactada com um trecho: “Meu pai me perguntava como eu podia ser lésbica, se eu usava batom e era feminina”. Eu nunca tinha ouvido falar dessa possibilidade. Lésbicas eram as Outras. Eu achava que era muito reprimida sexualmente pela Igreja Católica e que os sonhos com meninas eram uma forma de amar meu próprio corpo – levei essa teoria até os 16 anos. Percebi que era coisa muito importante fazer o mais cedo possível essa tal de opção sexual e me olhei no espelho para dizereu sou heterossexual”. Se o espelho pudesse responder, diria: “no futuro nós ainda vamos rir muito dessa história”. Hoje não se usa mais esse termo, e embora tenha achado aquela utilidade consoladora nele, pressentia que não havia essa opção. Pelo menos não para as outras, as meninas que eram lésbicas e nem suspeitavam disso ainda (?).

Foi um choque quando justamente elas pararam de me chamar de “monga” na Educação Física e começaram a me chamar de “sapatão” – isso porque eu também tinha atribuído uma sexualidade a elas, e embora nunca tenha enunciado, esse é sempre um exercício cruel. Minha mãe dizia para eu ignorar provocações, e era o que eu tentava fazer. Hoje sei que isso é um erro, mantém tudo como está, pode piorar, e por isso é preciso oferecer às crianças possibilidades de autodefesa. Uma menina, em particular, que corria e jogava ainda pior do que eu, escrevia bilhetes na sala de aula com a “acusação”. Ao mesmo tempo, para me vigiar, procurava sempre ficar perto, o que era absolutamente desagradável. Então, catolicamente, eu tinha pena. Pensava “estão descontando alguma coisa em cima de mim”, assim como as pobres almas que precisam ficar estudando a semana inteira para uma prova de Física. Não suspeitava o tamanho dessa coisa: eu, que era percebida como gay por elas, era o bode expiatório delas, que eram decerto percebidas como gays por suas famílias, e deviam passar por situações que eu nem podia imaginar. Lesbofobia introjetada é quando a pessoa reproduz o mesmo comportamento violento que a exclui. Não significa que as lésbicas e bissexuais sejam “naturalmente” violentas, mas que algumas não têm recursos para lidar com toda a violência que sofrem: odiando a outra, odeiam a si mesmas.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

o homem que assumiu o videogame

A Japanese man in love with his virtual reality girlfriend (SK, profeta).

(isso é da lua de mel)

Sobre a "primeira cerimônia pública de casamento já ocorrida entre homem e videogame", aqui e aqui. Diz que teve padre e tudo.

Valerá passarmos hoje sem aquela do MN?


http://www.direitohomoafetivo.com.br

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

recados de salomão

para a pessoa que entrou aqui à procura de “estou cagando muito por isso”,
eu também.
para quem procurou por “tomar na bunda sete dias”,
deu certo?
e "coleção sabrina a flor de fogo"? mim versão decaída de diane wakoski?

**
quem está sentindo falta dos meus posts curtos,
dá uma olhada no twitter do leprevost.

só não me troquem por ele, não não troquem por ele.
torço por meus camaradas, MAS invejo quando têm fã-clubes.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

hoje


Ele pede só meia dose: a mulher contrariada. O japa traz o copo de pinguinha cheio. Nakarocha é um botequeiro experiente. Ele sabe que o bar sempre vence no final.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

a pedra fundamental entregue na porta

Gabizinha fantasiada (?) de bruxa para o Cosme e Damião da Gringolândia.
Tia Sabrina: Olha só, até olheiras a tua mãe fez.
Gabizinha: Eu pedi.
Tia Sabrina faz uma careta medonha.
TS: Eu não preciso nem de maquiagem.
G: É, você já tem olheiras.

**
Esse blogue está uma bosta, eu sei. Mas como diria a Xuxa (só no final do programa), olha que dia lindo lá fora. Brincar lá fora é Viver a Vida. Por outra, the outside world is vastly overrated. Gostaria de processar a Xuxa por dano intelectual. Tudo começou muito cedo, e os fundamentos vieram sempre depois.

terça-feira, 10 de novembro de 2009


Vogon Captain
: So Earthlings I present you with a simple choice. Think carefully for you hold your very lives in your hands. Now choose: either die in the vacuum of space, or…
[Dramatic music]
Vogon Captain: …tell me how good you thought my poem was.

A BBC oferece um gerador de poemas vogon. Mas a magia está em que todo mundo já nasce equipado com o seu.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

direito conquistado

http://www.mp.pr.gov.br/arquivos/File/398ANXParecerCAOPEduc.pdf
Agora, as/os travestis e transexuais têm o direito a ser chamad@s, nas escolas públicas do Paraná, pelo seu nome social – só que a partir dos 18 anos. Esse nome constará nos registros escolares, mesmo que a pessoa ainda não tenha conseguido alterá-lo na Justiça. O nome civil é o que está na carteira de identidade, e o nome social aquele com o qual a pessoa realmente se identifica.

=)

sábado, 10 de outubro de 2009

na ufpr

Dia 14 de outubro, quarta feira, às 9 horas, a dra. Ana Paula Vosne Martins vai apresentar o seminário mensal da Linha de Pesquisa Intersubjetividade e Pluralidade: reflexões e sentimentos na História, do Programa de Pós-Graduação em História da UFPR. O texto tem como título A utopia amorosa em Michelet . Será às 9 horas na sala 612.

Dia 15 de outubro, por ocasião da Campanha Mundial pela Despatologização da Transexualidade, o Coletivo Stonewall vai exibir o filme Transamérica, estrelado pela atriz Felicity Huffman, no papel da transexual "Bree". Será no pátio da Reitoria às 19 horas, seguido de debate.

Dia 17 de outubro, sábado, às 10 horas, será a reunião mensal do Núcleo de Estudos de Gênero, com a profa. Márcia Frassão, do Departamento de Psicologia da UFPR. O título de sua exposição é O imperativo da maternidade na adoção. Na sala 612, no Departamento de História. Desta vez teremos chá e café.


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

hierarquia das mortes

(...) As travestis sabem que suas vidas não têm o mesmo valor das pessoas que habitam o dia, sabem que não podem recorrer ao Poder Público. Essa dolorosa consciência pauta suas vidas. Não fazem compras de mantimentos para a semana ou mês, afinal, podem sair para trabalhar e não voltar. Moram e andam em grupos.
Por que tanto ódio? O que esta violência nos revela? O que vêem os assassinos das travestis/transexuais? Como se produz esse ódio? A violência dos assassinatos contra as travestis e transexuais não termina na morte, geralmente caracterizada por brutalidades e requintes de crueldade. A polícia quando não cumpri seu papel de investigar e punir os culpados, também se torna cúmplice dos assassinos.
O assassinato de Vanessa, uma das muitas travestis assassinadas nesta região, nos revela a dimensão da desumanização das travestis/transexuais. Seu corpo ficou sete dias no IML, esquecido. Não foi tocado, limpo, nem posto reto no caixão. Vanessa foi enterrada com a cabeça torta, o braço torto, as roupas sujas de sangue. O corpo estava decompondo-se. Os técnicos dos IML, ao negar um tratamento humanizado ao corpo de Vanessa, também se tornam cúmplices.
O choro, o luto e os rituais que cercam a morte são atos sociais de reconhecimento. A dor da perda, a melancolia e o luto só acontecem porque se reconhece que minha vida perde alguma coisa com o desaparecimento de alguém. Quando os mínimos cuidados do corpo sem vida não são efetivadas, quando o corpo é coisificado, retiro dele qualquer possibilidade de humanidade e o não reconhecimento significa a impossibilidade da comunicação.
A funcionária de uma funerária afirma: “Muitas vezes os corpos são recolhidos com pá de tão dilacerados. Você não reconhece nada. Os policias olham como o corpo como se fosse de um cachorro. Era apenas um traveco, afirmam”
A desumanização das travestis e transexuais.
Os sucessivos assassinatos da mesma pessoa morta (pelos assassinos, pela polícia, pelos técnicos do IML) me leva a pensar que estamos diante de uma compreensão de humanidade muito restrita e limitada que não engloba todas as pessoas. A travesti não é um ser humano para o assassino que a matou a primeira vez, não é um ser humano para o policial, tampouco para os técnicos do IML Isso absolve imediatamente o assassino, pois, ele não matou um ser humano, “matou um travesti”.
A pergunta que muitas pessoas fazem é o porquê existem travestis e transexuais. Quais os motivos que levam uma pessoa a desejar transformar o corpo e a reivindicar uma identidade de gênero diversa daquela que lhe foi imposta? Essas perguntas já revelam a impossibilidade da existência de pessoas que vivem o gênero além do referente naturalizado.
A norma de gênero estabelece que somos determinados por nossas estruturas biológicas. Se temos pênis, somos homens, portanto, viris, competitivos, ativos e heterossexuais. A vagina significa que o corpo é frágil, passivo, penetrável. O desvio da norma (pênis/homem/masculino/heterossexual e vagina/mulher/feminino/heterossexual) é observado e castigado. As punições são múltiplas: uma surra do/a mãe/pai, um insulto do vizinho, a expulsão de casa ou/e da escola, o emprego que não aceita comportamentos não “convencionais”. As normas de gênero distribuem os corpos em função da normalidade que ele apresente. Quando maior o desvio da norma, maior o castigo.
Os documentários apontam exatamente a capacidade das normas de gênero definir os lugares, as falas, os gestos possíveis e impossíveis. Parece que há uma hierarquia: o gay que não ousa romper os limites binários do gênero, será vítima da violência, mas poderá habitar o dia. No entanto, transitar entre o masculino para o feminino, usar roupas femininas, pôr silicone significa ocupar a posição mais inferior e desumanizada nesta hierarquia. É com se houvesse camadas ou níveis de inferiorização sobrepostas. O feminino definido como “naturalmente” inferior, quando se desloca de corpos femininos para corpos masculinos potencializa essa inferioridade.
A concepção de humanidade é binária e naturalizada. Divide-se em homens-pênis e mulheres-vaginas. Romper e construir novos significados para os gêneros, deslocar a sexualidade da matriz heterossexual é estar em risco. Quando uma travesti é assassinada, o/a assassina/o está agindo em nome dessas normas. Nessa concepção binária, não tem espaço para trânsitos. Uma das entrevistadas nos conta que precisou ficar internada em um hospital, no entanto, não podia ficar nem na enfermaria feminina tampouco na masculina. “Não tinha lugar para mim no hospital”, afirma.
Essa concepção binária de humanidade estrutura as políticas públicas, a escola, a vida. Devemos, portanto, desnaturalizar, problematizar a noção de humanidade que estrutura o Estado e as relações sociais. Estamos disputando uma nova concepção de humanidade.
A violência retratada nos documentários é corriqueira em todo Brasil e a omissão/cumplicidade do Estado também é similar. A forma como justiça trata esses casos demonstra que há hierarquia das mortes: algumas merecem mais atenção do que outras. Um dos critérios para se definir a atenção que cada assassinato deve ter dos operadores do Direito é a conduta da vítima em vida.
Nessa cruel taxonomia, os assassinatos das travestis e transexuais ocupam a posição mais inferior. É como se houvesse um subtexto a nos dizer: “quem mandou se comportar assim”. Essa taxonomia, em realidade, acaba (re) produzindo uma pedagogia da intolerância. Nessa lógica de desumanização, a vítima se transforma em ré.
Para garantir que as coisas fiquem como estão, há um processo medonho de esvaziar a vítima de qualquer humanidade. Seguindo essa lógica, a possibilidade de se reivindicar direitos humanos se restringe a
um grupo muito reduzido de sujeitos que têm atributos que o lançam ao topo da hierarquia: são heterossexuais, brancos, homens masculinos, membros da elite econômica/intelectual/política. Conforme o grau de afastamento desses pontos qualificadores de humanidade, se reduz a capacidade do sujeito entrar na esfera dos direitos e de reivindicá-los. Os direitos humanos se transformam, nesse processo, num arco-íris: lindo de se ver, impossível de se alcançar.
Quantas travestis e transexuais já morreram? Não sabemos. Não temos dados precisos. Sabemos que as mortes por crimes de homofobia, transfobia e lesbofobia não chegam a se constituir em processos criminais. Poucos/as assassinos/as chegam aos bancos dos réus, e quase nunca há condenação por este tipo de crime. Lembro de uma amiga transexual que foi estuprada por um conhecido vereador de sua cidade. Essa violação, como tantas outras, jamais aparecerá em qualquer estatística. Por quê? “Se eu fosse na delegacia eu é que ficaria presa”, ela nos explica com clareza estonteante.
Borboletas da Vida e Basta um Dia são fundamentais na nossa luta pela humanização dos Direitos Humanos e na problematização dos significados hegemônicos que definem a vida pública e privada.


Trecho do artigo "Entre a noite e o dia: os perigos dos gêneros", de Berenice Bento, sobre os documentários Borboletas da Vida e Basta um dia, de Vagner de Almeida.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

luana muniz, a rainha da lapa


Sábado (dia 19), 10h, o fotógrafo Pedro Stephan (UCAM) vai falar na Reitoria,
na sala 612 do Prédio D. Pedro I,
na General Carneiro quase esq. com Amintas de Barros.
A vinda dele é uma parceria do Núcleo de Estudos de Gênero com o CECIAL/UFPR.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

cuida o que pede

– Eu tenho uma coisa boa pra te dizer, meu amor. A gente se conhece faz quinze anos, e hoje a gente é adulto e artista. E isso era exatamente o que tínhamos imaginado para nossas vidas.
– Pois, a gente esqueceu de se imaginar rico.

esperando gauguin

1.

2.

3.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

literomania

Amanhã também tem, na Bienal do Livro de Curitiba,
Literomania - Sarau dos Jovens Poetas
organizado pela Revista OFFLINE (editor Ricardo Peruchi)
sábado (29/8) das 19h às 21h30
Espaço Conexão Geral, na Universidade Positivo.
Homenagem a Paulo Leminski por seus 65 anos.
Logo após, declamação de poetas convidados.


primeiras leituras do núcleo de dramaturgia na i bienal do livro

meeerda! ^^

O Núcleo de Dramaturgia SESI Paraná promove, a partir de amanhã (sábado, 29/08), o Ciclo de Leituras dos primeiros textos produzidos por integrantes da Oficina Regular de Dramaturgia que está sendo realizada desde março e que conta com a orientação do autor e diretor teatral Roberto Alvim, carioca radicado em São Paulo. As Primeiras Leituras acontecerão no stand do SESI Cultural na I Bienal do Livro que acontece no Expo Unimed Curitiba, campus da Universidade Positivo.

As leituras vão acontecer das 18 às 19 horas e a programação prevê leituras de textos de Rogério Viana, amanhã, sábado (29/08); Nana Rodrigues, domingo (30/08); Andrew Knoll, segunda-feira (31/08); Cynthia Becker, terça-feira (01/09); Pagu Leal, quarta-feira (02/09) e Douglas Daronco, quinta-feira (03/09). No domingo, dia 30, às 19h, acontecerá um bate-papo com o dramaturgo e coordenador do Núcleo de Dramaturgia Marcos Damaceno, que falará sobre o processo de criação de novos textos para teatro.

www.sesipr.org.br/nucleodedramaturgia


quinta-feira, 27 de agosto de 2009

insônia e canções

por Larissa Selhorst Seixas

Você está desperta de novo, no meio da madrugada. Você sente que não vai mais conseguir dormir, que seu corpo e seus olhos estão tão despertos como se você tivesse acordado de um pesadelo. Mas você não acordou de um pesadelo, você sabe que a insônia sempre vem naquelas noites quando você sabe que terá um longo dia pela frente e num misto de ansiedade e recusa, seu corpo simplesmente não consegue relaxar.

E fica uma música, sempre uma música persistente, tocando tão alto dentro da sua cabeça que você mal consegue ouvir seus pensamentos, ela fica cantando com aquela voz fina e melancólica “are you crawled out of the sea straight into my arms, straight into my arms...”. E você ouve esses pássaros cantando um canto repetitivo, monótono, cantado cem mil, um milhão de vezes a mesma nota esganiçada, como se cantar esse canto fosse o objetivo de tudo, do dia nascer, do planeta girar, do universo se expandir. Como pode esse canto estar aqui, na madrugada dessa cidade de tons pastéis tão sujos, nessa cidade onde estamos presos e soltos, amarrados e livres. E tem sempre esses barulhos na madrugada, barulhos incompreensíveis, parecendo sempre tão próximos daqui, alguém batendo com força pra entrar, alguma coisa sendo misteriosamente arrastada. Você fica um longo tempo atenta a esses barulhos, começa a se sentir um pouco amedrontada, o barulho não para, de tempos em tempos alguém bate numa porta que não é a sua, mas que poderia ser. Então você se lembra dele, dele, dele, ele que você queria tanto que batesse na sua porta, dos olhos tão verdes como se um dos seus pais fosse um farol de trânsito, ele, tão luminoso, tão atraente pra você como se uma força magnética emanasse do corpo dele, como se ele fosse um astro e você um simples asteróide, tão forte e duro agora, agora que agosto está chegando ao fim e ele está indo embora. E você queria poder pedir pra ele ficar, poder encontrar a senha que traria ele pra perto de você, mas isso não vai acontecer, você sabe que não vai, e aquela dor persistente mas suportável continua. Logo ele estará em outro continente, em outro hemisfério, quase em outro planeta, e você sabe que de lá, numa distância segura, ele procurará você de novo, quando chover, quando for inverno, quando a cidade o repelir como a um árabe passado por terrorista, mas então você se lembra que é Paris e quem pode se sentir sozinho em Paris, com todos aqueles fantasmas fabulosos dos grandes homens e mulheres que, como ele, viveram em algum momento nessa Paris que eu desejei tanto também ser minha.

E você se pergunta por que está escrevendo isso, por que se deu ao trabalho de ligar o computador só pra isso, mas, no fundo, você sabe que é por que você queria poder impressioná-lo, a ele e a tantos outros, mostrar que você tem algum talento, mesmo que não tenha, provar que você escreve tão bem quanto aquela mulher de terríveis olhos castanhos que tirou você dos braços do amor. E você queria escrever algo tão bonito, algo doce, amargo, ácido, com todos os sabores, algo comovente, tocante, sufocante, cheio de sombras e vestígios de antigos ou nem tão antigos sofrimentos e rejeições, você queria ser amada por isso, por essa pequena fração de algo doloroso, brilhante, terrivelmente belo que sairia de seus dedos. Mas isso tudo é bobagem, você ainda tem mais uma hora até o despertador tocar e, de repente, aliviada do peso desses pensamentos da insônia, você resolve experimentar fechar os olhos e então, ploft! dorme.


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

do trovão em diante, ela voa

(só um pouquinho só, hoje)
Será que Sarah Kane imaginou que o monólogo do pedófilo que escreveu em Crave seria trocado entre amantes na internet? De maneira piegas, de maneira criminosa. It has to stop.
E eu também profano, cortando o trechinho abaixo de 4:48 Psicose pra vocês:

I've never understood
what it is I'm not supposed to feel
like a bird on the wind in a swollen sky
my mind is torn by lightning
and it flies from the thunder behind

(nunca entendi
o que é que não é pra sentir
pássaro suspenso no céu pesado
minha mente é desfeita pelo clarão
e abandona o trovão no seu voo)


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

diane wakoski

Tradução em andamento, minha, com revisão da Miriam Adelman.


5 de Paus: Rapazes Lutando ou Jogando com Bambus.

O segredo

sempre foi

o que os homens acham

pra fazer

uns com os outros. Essa grande

maioria de momentos que, como o futebol

e certas micoses, e mineração

excluem mulheres.


Nós temos tão

pouco.

A taba

aonde ir

quando sangramos, e a lua nada

ou vai embora com a água dentre nossas

coxas.


      Polo aquático,

      um esporte grande,

      em meu colégio californiano,

      o eleito dos riquinhos que moravam

      com suas piscinas em Heights

      garotos

      que dirigiam Fords novos

      antes de entrar na faculdade, depois

      do aniversário de dezesseis, garotos

      que fechavam os olhos quando tocavam

      a gente nos lugares molhados, todas

      nós querendo ver suas mãos

      saírem limpas de sangue. Mas os

      lábios, sempre sangrentos.

      disséssemos “Bah-bah-bah-

      Bah-bah-bra-Ann” ou

      "my Little Deuce Coupe”

      bebêssemos cherry cokes

      ou leite, poetas ou cinéfilas, andamos em nossas crinolinas engomadas

      e blusas de lacinho indo mensalmente

      para os quartos segregados, cheirando

      a peixe sob a água de colônia.

Mas os garotos, eles se divertiam

quando estavam segregados;

quando ficavam juntos sozinhos

eles tocavam

– com piadas,

ou saudações

“Meu chapa”

como nunca fizemos;

eles falavam,

como ainda não podemos,

descobriam como o mundo gira,

como a gente,

é claro,

não.

E polo aquático, os garotos

batendo aquela bola grande e branca

na água verde-esmeralda

da piscina olímpica da FUHS,

Oh, eles sabiam até nossos segredos.

Que a lua que eles tinham lançado e espirrado e estapeado

na água era justo como aquela

empurrada dentre nossas coxas todo mês

- se éramos boas,

- se tínhamos sorte,

- se éramos espertas.


Ah, não me diga NUNCA

que as mulheres têm vidas secretas

ou tesouros

que ninguém fora outras mulheres

conhece.

Me diga,

ao invés,

que o segredo é,

sempre foi,

por que homens têm tanto prazer

na companhia uns dos outros, por que mulheres,

quando segregadas e juntas

de outras, só têm taba menstrual,

o velho, grosso sangue mensal

pra dividir?

ou o tabu oposto:

o clonezinho nosso

moldando dentro de nosso corpo,

seu rosto e forma a partir da lua,

que some então por nove meses ainda

mais

solitários.

Uma criança no lugar da mãe.



5 of Staves (Wands):Young Men Fighting or Playing with Green Poles.

The secret

has always been

what men find

to do

with eachother. Those great

majority of moments which, like football

and jock itch, and mining

exclude women.

We have so

little.

The hut

where we go

when we're bleeding, and the moon

is swimming or being washed from out between our

thighs.

Water polo,

a big sport,

at my Southern California high school,

favored by rich kids who lived in the

Heights with swimming pools

boys

who drove their new Fords when they were juniors

after their sixteenth birthday, boys

who closed their eyes when they touched

us in those wet places, all

of us hoping their hands

would not come away bloody. But the

lips always were.

whether we say "Bah-bah-bah-

Bah-bah-bra-Ann" or

my "Little Deuce Coupe"

whether we drank cherry cokes

or milk or wrote poetry or watched movies

we watched in our starched crinolines

and lacy blouses once a month to

segregated rooms, smelling like fish

under our deodorant.

But the boys, they had fun

when they were segregated;

when they were alone together

they touched

-- with jokes,

or greetings

"Hey Man"

as we never did;

they talked,

as we still cannot;

they found out how to run the world,

as,

of course,

we do not.

And water polo, those boys

hitting that big white ball around

in the green-like-emeralds water

of the FUHS Olympic-sized pool,

Oh, they even knew our secrets.

That the moon they tapped and spun and slapped

around the water was just like the one

pushed out between our thighs each month

- if we were good,

- if were were lucky,

- if we were smart.

Oh, don´t tell me EVER

that women have secret lives

or treasures

that no one except other women

knows about.

Tell me,

instead,

that the secret is,

and always has been,

why

men find so much pleasure in each

other's company; why women

when they are segregated and together with

each other, have only the menstrual hut,

the old, rusty, monthly blood

to share?

or its taboo opposite:

the little clone of ourselves

forming inside our bodies,

etching its face and shape on the moon,

which will then disappear for nine even lonelier

months.

A child to replace the mother.