quinta-feira, 31 de julho de 2008

– Como foi no Rio? Viu algum famoso?
– Não. Sim. [Lembra com alegria]. Comi pizza. Num dia com o Ciclano, e com o Fulano no outro.
– Ah. [Baixa inconscientemente a voz]. Só gente de Curitiba.


domingo, 27 de julho de 2008

G, amigo de F, quer apresentar uma amiga a S, 29 anos, solteira. S diz a F:
– Sei lá, a menina tem cara de dramática, e o G parece ser o tipo de pessoa que gosta de todo mundo.
F põe a mão no peito, arregala o olho e defende sem demora o amigo:
– Imagina! O G é superpreconceituoso!
M, ao ouvir a história, coroa:
– Lógico. Todo gay é preconceituoso.


sexta-feira, 25 de julho de 2008

reinações de gabizinha

Ao telefone.
A: Você quis arrumar o livro didático para viajar, e aposto que nem chegou perto dele.
G: Cheguei perto, mãe. Passei do lado dele hoje pra pegar o Cara a Cara.

PS: não lembro o nome do jogo. Inventei.


quinta-feira, 24 de julho de 2008

merde!

em memória de dercy gonçalves.



segunda-feira, 14 de julho de 2008

minha cabeça é um minhocário.

sábado, 12 de julho de 2008

o lema da she-ha é melhor

Um funcionário do posto e um caminhoneiro ensaiam para vir falar com a gente. Meu camarada, do volante do carro, pergunta logo se é para ele sair. O motorista chega perto e explica que é até ele colocar o caminhão de álcool perto das bombas, que se o amigo saísse ficaria melhor (eu teria dito possível), no caso de ele poder, que seria rapidinho, que não precisava sair muito, que era dar uma rezinha, por gentileza.

Explica com o sorriso constante de uma pessoa humilhada, para quem essa não é uma circunstância e sim lugar no mundo. O do carro delicadamente diz que não estava ali fazendo nada mesmo, esperando um amigo.

Isso aumenta o constrangimento do homem, que deve apreender, entre os princípios formativos de nosso país, o de que as pessoas que trabalham devem se desculpar pelo incômodo, principalmente, das que não estão fazendo nada. Ele agradece e corre pro caminhão.

O homem leva para o posto o tanque de combustível, lentamente como se fosse por causa do peso. Com sua carga, poderia matar todos nós*.

No caminhão, um herói de stêncil mostra o braço musculoso. Parece saído de um desenho da Disney. Atrás do tanque, a legenda: Hércules.

* Tinha feito uma coletânea das correções do Word, mas perdi. Fica essa como amostra: “poderia matar todo eu”.

ctrl + t

A gente muita coisa na fala coloquial, mas nunca vi nenhum erudito que falasse “este”, todo mundo falaesse”. Dá para conferir na maioria dos textos que reviso: as pessoas tascam “esteem tudo quanto é lugar, porque que nunca se fala, deve ser a forma mais adequada. tem alguma editora que não usa mais essa forma, queria trabalhar para ela.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O operário que namora uma milionária na novela (onde mais?) pergunta por que a fila da boate demora tanto. Ela explica que não é uma espera para entrar, mas que eles selecionam as pessoas pela cara. Minha mãe acha isso contraproducente para o andamento da fila e eu explico que é um jeito de excluir os pobres, que não adianta ficar o mês inteiro guardando 100 reais para ir na boate dos ricos, porque eles te barram pela cara.

Então aquele cara atrás deles vai ficar de fora.

– Provavelmente.

Uma hostess reconhece a milionária e a coloca para dentro. O operário fica constrangido de furar fila. Minha mãe:

Mas eles não têm culpa, se a moça da boate está chamando, não foram eles que quiseram passar na frente dos outros.

Eles têm culpa de ir num lugar desses. Por que alguém se digna a uma coisa assim?

Não, é bom que eles vão. assim a gente fica sabendo que isso existe.

uais para maikon

semilitúrgico

n adjetivo

diz-se do ofício litúrgico em que são inseridos diálogos

Obs.: cf. drama semilitúrgico

sábado, 5 de julho de 2008

tá bom, tia!

Gabizinha me conta que mudaram o formato da "casca" do Kinder ovo porque uma criança foi morder o chocolate e engoliu [a antiga] inteira.
Eu: E ele teve que ficar horas pra esperar o plástico sair no cocô...
Antes que eu fizesse alguma piada sobre o cocô com surpresa, ela já estava me olhando como se eu fosse a maior idiota:
Ele morreu na hora, tia!

*
Minha irmã: Quanta gente saindo da igreja!
Gabizinha: Mãe, aquilo é uma igreja? Achava que era um shopping.
Minha irmã: É que é de outra religião.
Gabizinha: Taí uma coisa que eu sempre quis saber. O que é religião?
Minha irmã explica brevemente, no grau de compreensão de uma criança de seis anos.
Gabizinha: E qual é a nossa religião?
Minha irmã: A gente foi batizada na igreja católica.
Gabizinha [balança ceticamente a cabeça]: E isso significa...?

*
Gabizinha começa a ler o texto que não tive a decência de pintar, na porta do meu quarto na casa dos meus pais, quando fui embora. Como faltam palavras, eu completo:
Mas porque estar-aqui é excessivo e todas as coisas
parecem precisar de nós, essas efêmeras que estranhamente
nos solicitam. A nós, os mais efêmeros. Uma vez
cada uma, somente uma vez. Uma vez e nunca mais.
E nós também, uma vez, jamais outra.
Ela: Não entendi nada...
Eu: É que o poeta que escreveu isso [Rilke nas Elegias de Duíno traduzido por Dora Ferreira da Silva] passava pelas coisas, por exemplo, por uma menina tocando violino, que sabia que não ia ver nunca mais, e havia um tipo de um pedido para escrever sobre o que percebia [Gabizinha faz ar de desespero] em vez de deixar passar o tempo com o amor. Porque mesmo se ele vivesse de novo a mesma coisa, não ia ser [ar de desespero crescente]... Me dá mais uma chance?
Ela: Não.