sábado, 21 de junho de 2008

Pra quem considera "depende" uma resposta burra.

Sabrina [puxando conversa com um senhor que trabalha nos cinemas da fundação, logo, me viu crescer, mas ainda assim não vai falar mal da programação]: O filme é bom?
Seu Vitório: Se você gosta do Mauricio Mattar.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

personal organizer

Adoro meus amigos com TOC.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Então, era para eu estar de "férias", mas não estou.

Segunda eu comecei a chorar, disse que não queria ir pro trabalho e não fui. Se continuar desse jeito, onde vou parar?
– Na gerência!

terça-feira, 3 de junho de 2008

mulheres e justiça ambiental 10

O “progresso” é associado à cultura, e os modos de produção tradicionais, à natureza, em uma estratégia discursiva que despolitiza os dois modos de produção e a relação dos povos com seu território. Essa dicotomia, natureza/cultura, é aquela mesma que as feministas desmontam, como vimos acima em muitas situações. Fernanda: Porque me pareceu o seguinte: as populações, nos lugares onde vão acontecer inundações, elas são consideradas natureza, como se fossem todas, aquela fauna, aquela vegetação, quer dizer, naturaliza o fato delas serem ou inundadas, “ou então você se manda daqui”. Quer dizer, deixa para própria população, individualmente, resolver “vou me mudar! Porque minha área vai ser inundada!”. Ou seja, transforma numa questão individual aquilo que não é individual, porque é uma política pública.

Existe uma sinergia entre ecologismo e feminismo, movimentos que passam a pensar a natureza de uma forma política. E também existem outras identidades comuns que se desdobram daí. A estratégia comum é a desnaturalização, o questionamento dos discursos que justificam as estruturas de poder.

Mariana: E pensando justamente no que vem circulando, que é uma carta ao governo com a criminalização que se fez, dentre as mulheres que ocuparam este lugar. E me preocupa a questão de como poder estruturar a luta e que não se vejam estas pessoas que estão se mobilizando por questões concretas que, ao revés, são uma crítica ao sistema que as deixa de fora... Como isto está tão naturalizado, que certas coisas são boas para o desenvolvimento, para o capitalismo, são boas para que todos os seres humanos possam viver e no entanto, é um sistema que, em realidade, exclui mais que inclui. Ou seja, está lutando por seus direitos, mas na verdade não se vê que estão lutando por seus direitos. O que se vê é que estão lutando contra os direitos de todos os demais, supostamente para os quais o sistema traria benefícios, como se fosse um crime ideológico, como se fossem criminosas ideológicas. Digo isso, primeiro, pela experiência que estou vivendo no Uruguai, nesses momentos em que todos os movimentos estão contra as instalações das fábricas de celulose, que os vêem como criminosos ideológicos, como criminosos do progresso. E aí se põem em cima de todo o trabalho, que supostamente estas fábricas vão trazer, por exemplo, quando falamos de agricultores, agricultoras, não se pensa no trabalho que eles estão perdendo. Então, como esta lógica é tão naturalizada, tão vista como positiva, é difícil desestruturar, assim como é difícil desestruturar, e por isso que queria fazer este paralelo, justamente, a relação da dominação nos caminhos dos gêneros. No caso do amianto, aí é mais fácil de compreender em termos de vítimas, porque é uma vítima de uma lógica própria do sistema. Do que lhe aconteceu em termos de pessoa. E como, utilizando outra lógica, que está fora do sistema, de outro tipo de desenvolvimento, se pode discutir essas coisas?

O feminismo, por sua vez, desnaturaliza o que seja a função social das mulheres. Por exemplo, a idéia de inferioridade física das mulheres era naturalizada. As feministas provam que existe um gênero que estabelece culturalmente papéis para homens e mulheres, e que esses papéis desde a infância atribuem às meninas menos capacidade física. O feminismo também fez um questionamento político da categoria “natureza”. Em uma idade em que não existem diferenças de força entre meninos e meninas, elas são poupadas em nome da idéia de sua inferioridade física, e por isso são prejudicadas no desenvolvimento de sua força. Essa inferioridade, portanto, não é “natural”. As pessoas são socializadas de um jeito diferente desde o anúncio que sucede o parto: “é menina”, ou “é menino”.

Uma das formas de responder à “criminalização ideológica” que sofremos ao combater o modelo de desenvolvimento é fortalecer essas estratégias de desnaturalização, desmontando discursos, procurando seu significado político. Também é preciso fortalecer, para promover a justiça ambiental, as identidades culturais que configuram diferentes apropriações do território: o significado que os “recursos naturais” têm para cada um/a de nós.

Rosana: [Para nós] terra é mais que terra. Nós sabemos o valor da terra, nós sabemos o valor da água, de cada pé de árvore. Nós sabemos o valor da família. É por isso que a gente não quer sair de lá.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

mulheres e justiça ambiental 9

Lutas comuns

Parte da luta por justiça ambiental está em mostrar que a natureza é uma questão social e política. Pelo menos no que diz respeito à geração de lucro, ela ainda é vista como uma riqueza, um conjunto de bens ou entrada ao desenvolvimento: o ambiente é representado como uma questão separada da sociedade, fora dela. Visões que integram a natureza com a vida humana, como a das comunidades tradicionais, por exemplo, têm sido excluídas na hora de se pensar política.

Rosane: O capital que figurava na Marinha, que não deixa o pessoal da Marambaia se organizar, se construir, que exclui, é o mesmo capital que não está nem aí com as mulheres do amianto. É o mesmo capital que não está nem aí com as agricultoras do MAB que são excluídas. É o mesmo capital que não está nem aí para os agricultores que estão no processo, excluídos, da Sadia, da agroindústria. Lógico que a história nos mostra que os negros e as mulheres são mais excluídos. Agora, como que nós, a partir de nossas experiências, a partir dos nossos espaços, do nosso mundo conseguimos também captar na luta de projeto da sociedade que nós vivemos?

Rosana: No capitalismo e na sociedade de sistemas é um padrão. Ele exclui tanto econômica, cultural, quanto socialmente. (...) É uma exclusão de gênero, de etnia, mas também de classe. Então, nós, atingidos por barragens, tendo todas estas outras exclusões, mas é uma exclusão de classe porque nós atingidos fomos nos colocando na parte mais baixa sempre nas encostas de rio. Então assim, de que jeito ele exclui? Ele exclui de todas as formas. Desde a mais pequeninha, desde você não conseguir estudar, desde você não conseguir ter lá uma coisa diferente (...). O grande inimigo a gente pode ver aqui. Ele tem as formas de agir, que é através da barragem, que é através da monocultura, mas que é tudo sistema, é o sistema capitalista. E por isso que nós não podemos fazer as coisas desvinculadas.

Para fazer as coisas vinculadas, é preciso pensar em eixos de luta tão complexos quanto o modelo de desenvolvimento que atinge populações vulneráveis. No caso da Amazônia, Matheus chama a atenção para o fato de que só os indicadores do desmatamento não têm sido suficientes para detê-lo: o problema está vinculado a várias relações sociais, e é importante achar um ponto de convergência entre os movimentos para fazer esse enfrentamento maior, contra o modelo de desenvolvimento como um todo que segue avançando e destruindo. Ele é multifacetado e as lutas não podem ser isoladas. Aí entra a potencialidade do enfoque da justiça ambiental para unificar lutas sociais. O tema da segurança alimentar também foi apontado como elemento unificador, pela Antonieta (ANAMURI), cuja luta abrange a questão das sementes, mas também da terra e da água, tendo criado uma interseção entre movimentos camponeses e ecologistas. Esse é o enfoque da ecologia social, que consegue ver a importância da relação entre pessoas e o resto da natureza de uma forma mais integrada que o ambientalismo tradicional:

Selma: Dentro do próprio movimento, eu vou citar um evento rápido, que é a questão dos índios, os guaranis, na Mata Atlântica, em São Paulo. A gente tem um conflito com quem poderia estar do nosso lado, que são os ambientalistas, os ecologistas. Em vez de a gente estar lutando contra os madeireiros, contra as empresas de turismo, que querem fazer grandes empreendimentos na Mata Atlântica, são eles que estão querendo tirar os índios da mata. Porque são áreas de unidade de conservação. São parques, estações ecológicas que não permitem a presença do povo indígena lá.

Alejandra: Nesse momento, ser humanista é um grande palavrão, um rótulo realmente indigno. O ser humano, ou você é tecnológico, você acredita neste progresso tecnológico, ou, se você critica, você passa a ser humanista. (...) [Lemert] disse que no final estamos descartáveis. Alguém falou hoje dos descartáveis. Ou seja, populações excluídas, populações carentes, populações marginalizadas constituem a população realmente descartável dentro deste mundo de tecnologia, de ciência e de capital tardio. (...) A própria idéia de liberdade deve ser revista nos contextos em que estamos agora. A própria questão da escolha, a escolha de uma série de produtos tecnológicos de alto nível nas prateleiras e você pode escolher isso, conhecer, fazer algum tipo de análises destes produtos, isso é história de liberdade. Porque natureza e cultura, também, para mim é uma das questões fundamentais contemporâneas. Por quê? Porque tivemos um desenvolvimento tecno-científico violento que criou produtos tecno-naturais e nos apresentou muito, muitas coisas que não existiam e agora existem. Continua a aparecer o que antes não aparecia na natureza e há possibilidade de modificar o corpo humano, há possibilidade de intervir e modificar estruturas. Há uma série de coisas muito graves que acontecem, das quais, talvez, nós não tenhamos percepção. (...) [Algumas pessoas] se recusam a aceitar isso porque significa o reconhecimento de que estamos em algum momento da civilização que nós ainda não compreendemos, mas que nos está engolindo aos poucos.

Beatriz: Uma coisa que tiro como conclusiva destes dois dias em que estamos aqui é que todas as mulheres, em particular, não tomam decisões, estão excluídas de tomar decisões em relação às novas tecnologias. E algumas das conseqüências gerais destas tecnologias são os grandes processos de homogeneização, que se vêem na homegeneidade cultural e na homogeneidade que se ganha em matar a biodiversidade e pela monocultura e a idéia que está por trás da questão da manipulação genética humana. É como sempre diz Jurema Werneck, uma segunda forma de eugenia. Essa questão é que tem que se questionar esse modelo de progresso e de desenvolvimento, o modelo científico-técnico. Como vimos essa idéia de ser humanista como algo que é pejorativo, como algo que é mal, na realidade é uma forma, uma pretensão de naturalizar, como disse antes a Mariana, já que as tecnologias são assim, não tem como parar ou retroceder, que não se pode questionar, porque se é chamado de retrógrado.

domingo, 1 de junho de 2008

mulheres e justiça ambiental 8

As gerações de mulheres que presentemente se mobilizam encontram muitas vezes mais condições de negociar com a burocracia do que com seus maridos: poder, só coletivo. Parece uma contradição: na praça pública, até pouco tempo atrás proibida para mulheres, foram se constituindo regras e leis que obrigam a que sejam ouvidas suas demandas. Existem mecanismos e programas específicos de reivindicação. Toda essa boa vontade do Estado brasileiro, no entanto, não veio de graça: é uma das muitas dívidas que temos com as gerações anteriores de feministas, que enfrentaram proibições e ridicularizações para conquistar esse espaço – que permanece em disputa. Já suas conquistas dentro dos lares estão sempre sujeitas à negociação individual.

Rosane: no Vale dos Vinhedos [em que a disputa do território em maior escala envolve a questão da água e a indústria do vinho] a tradicional criação de suínos era um assunto masculino. As mulheres queriam implantar uma esterqueira, mas tendo percebido o seu pouco poder para negociar com eles individualmente, usaram [o poder] no lugar em que isso era mais viável, a mobilização pública.

Socorro: Era uma organização só de homens, onde as mulheres não tinham participação, não tinham voz de voto. E aí a gente começou a se mobilizar para se organizar, nós mulheres. É claro que foi depois que a gente começou a ter uma participação fora. Que a gente ouviu as mulheres discutindo, falando em se organizar, aí a gente chegou lá e levou esse modelo também. Porque isso aqui é um aprendizado, e aí a gente falou: as mulheres se organizam desse jeito. (...) A gente só ia para cozinha para fazer o alimento, a roça, fazer os trabalhos de roçado. Ainda tem, ainda acontece, em muitas comunidades ainda tem do homem ir fazer, participar de reuniões das políticas indígenas, a discussão do movimento, e muitas ainda ficam em casa cuidando dos filhos, pescando, caçando, fazendo farinha, ainda têm muitas mulheres assim. Mas tem outras que não. Deixam tudo para ir também discutir. Então a gente está nessa luta e a gente está conseguindo desenvolver nosso trabalho.(...)

A mulher tem que ter a participação. Começaram a descobrir isso quando foi um projeto para a Terra dos Homens, e eles aprovaram mas não deram o dinheiro todo para fazer nossa reunião, a assembléia da Opimp que seria junto com a Amimp. Então eles [líderes da Opimp] disseram assim: vocês não vão ter como participar, porque é um número muito alto de pessoas. Então as mulheres vão ficar de fora.

Que que nós fizemos? Tem a sede [de uma entidade] que articula, que financia para eventos. A gente empurrou nossos projetos para lá e então foi aprovado. Por quê? Porque era uma reunião de mulheres. Então, 70% a gente tinha conseguido porque nós éramos mulheres na luta.

Além de recriar seu próprio repertório para enfrentar o mundo, as mulheres precisam negociá-lo nas relações interpessoais, com outros indivíduos. Embora tenham, legalmente, autonomia, as relações de poder no casamento continuam criando impedimentos para sua mobilização. O ciúme é uma das maneiras mais comuns encontrada pelos maridos para entender e expressar o seu descontentamento. Isso foi demonstrado por mulheres de diferentes origens, sendo o caso da Cristina o mais emblemático.

Na véspera do início da oficina, o marido de Cristina tentou criar um impedimento para sua ida ao evento, pelo fato de, sendo a sua cidade (Itaboraí) distante do Rio, ela ter de dormir duas noites fora de casa. Ela e a colega Cida usaram então a estratégia da negociação[1]: dormiram uma noite no Rio entre os dois dias de oficina, mas para o primeiro dia saíram de Itaboraí de madrugada, e não no dia anterior como havia sido providenciado para elas. Dessa forma, Cristina nem rompeu com seu marido nem deixou de participar do evento, flexibilizando, ao invés de acatar, as exigências dele diante do seu próprio desejo e perdendo, em troca, uma noite de sono.

As mudanças provocadas na vida privada desde o movimento político institucionalizado foi um tema que surgiu durante a oficina e que mantemos aqui como uma hipótese, possibilitada pelas falas acima. No entanto ela merece uma pesquisa qualitativa mais aprofundada:

Carmen: Então você tem uma situação social construída que gera impactos diferenciados. Mas daí a gente ver o inverso, que o conflito gere impactos na alteração da relação de gênero no interior das casas, das famílias, é muito difícil. A gente precisaria daquilo que a Silvia estava dizendo, das histórias de vida, das presenças do tempo para reflexão sobre este aspecto, que a gente, não é o objetivo aqui, não tem muito. Mas eu acho que não dá para ver e acho que isso não é micro. É uma coisa extremamente macro. Porque predomina na sociedade como um todo, é funcional ao capitalismo. Se as mulheres fizessem greve, todas as mulheres deixassem de produzir alimentos, lavar roupas, varrer casa, as grandes corporações teriam que garantir que isso fosse feito de alguma forma[2].

Matheus: Por dentro de uma análise micro, que pode ser expandida para macro, ela pode denunciar a subordinação e pode ser um momento para a emancipação e a luta pela igualdade. De outro lado, esta mesma situação na justiça ambiental reverte que o impacto do modelo que vem sendo destruído acima dos camponeses impacte muito, com muito mais força, sobre as mulheres. Quer dizer, o que de um lado é uma estruturação de subordinação dentro da unidade familiar, do outro lado faz a esta mesma situação que o impacto destrua as tarefas mais imediatas e tradicionais.



[1] Carol Ghilligan, em Uma voz diferente, observa que a negociação é predominantemente uma forma de as mulheres lidarem com questões de moral e ética (embora tenha iluminado a existência dessa Outra moral, Ghilligan não pretende defender que ela seja “essencialmente” feminina, mas sim um comportamento observado na maioria das suas entrevistadas, de diferentes faixas etárias, que pode se dever ao papel social das mulheres, mais vinculado à responsabilidade nos relacionamentos). Em uma sociedade regida por regras que, algumas vezes, se excluem (quando um direito maior se sobrepõe a um direito menor), muitas mulheres tiveram sua conduta ética incompreendida até pelos psicólogos que conduziram a parte de entrevistas da sua pesquisa. O que foi chamado “ética do cuidado” se caracteriza pela negociação entre regras, para que as partes envolvidas em um conflito se saiam de uma forma satisfatória para ambos, como ocorreu entre Cristina e seu marido.

[2] Essas tarefas têm um objetivo contraditório em relação ao capital, que precisa da vida humana para gerar lucro, pois são voltadas ao cuidado da vida humana. Cristina Carrasco: “Para cada pessoa, aquela atividade por meio da qual tem estabelecido a relação [afetiva] é a que não tem substituto de mercado. Daí que seja praticamente impossível classificar as tarefas do lar em mercantilizáveis ou não mercantilizáveis, precisamente pelo componente subjetivo que podem incorporar”. “Mas essas atividades não valorizadas – que incorporam uma forte carga subjetiva – são precisamente as que estão diretamente comprometidas com a sustentabilidade da vida humana” (A sustentabilidade da vida humana: um assunto de mulheres? In: Nobre, M.&Faria, N. A produção do viver: ensaios de economia feminista. São Paulo: SOF, 2003, p. 15 e p.17). A sustentabilidade exige tanto uma relação harmônica das pessoas com o meio ambiente quanto das pessoas entre si.