sexta-feira, 28 de setembro de 2007

vida

(mais uma prosa de sabrinão)

Todo mundo sabe
que enquanto as crianças dormem
as bonecas aproveitam
para gastar o plástico de seus corpos.
Enquanto as outras pulam, a Barbie em segredo
torce o dedinho da menina,
em vingança por não ter ganho sutiãs.
Algumas aproveitam para se ver no espelho
Lastimam por seus cabelos.
Se fossem bonecas antigas, teriam cabelos de verdade.
Antigamente, a menina poderia vender os seus por um bom preço. Hoje são mais baratos, embora tenha se tornado necessário tanto xampu.

Xampu!, lembram com horror. Algumas choram.

Uma canção inaudível conduz sua dança
até muito depois do que seria prudente.

A menina abriu os olhos pela segunda vez.
Na terceira, todas devem estar na posição inicial
pois estarão aprisionadas novamente
um pouco antes de a humana acordar.

Como é difícil correr com pernas que não se dobram!
Não é à toa que a queda de Sissi
desperta de uma vez uma menina muito assustada.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Por diálogo social entendo um diálogo entre um homem e a sociedade, em que só o homem é que fala.
José Bação Leal, em carta de 1962 ao Luís.

"eles" tinham razão

bem faceira, fecho os olhos e ando uns dez passos. olho de novo para o resto da calçada: absolutamente segura. se um dia ficar cega, não será tão difícil. com os braços à frente, ando mais meia quadra, até abraçar o capô de um carro que estava saindo da garagem. devagar, aleluia. poderia ter sido ali meu último descolamento de retina.
a provar, mesmo com boa disposição, o poder do pensamento negativo.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

quenem

O cordeiro morre silencioso, não se ouve sequer um perdoai-vos. Escorre uma lágrima: nem ela sentimental. Corre por gravidade, na posição inédita de patas para cima. Como o sangue do seu pescoço aberto.

Há outros animais a elencar.

Porcos morrem gritando que nem gente. Não é qualquer um que pode matar porco, aos escolhidos pesa a sua própria coragem surda. A berradeira não é mística, começa com a virada do bicho de pernas para o alto – não um dia antes, de pressentimento. Pés e mãos amarrados, o seqüestro do porco termina com uma facada no coração.

O gado também grita, um grito grave, tuba terrível, não porque se vê amarrado, o que não estranha, mas porque logo vê jorrar o sangue da veia que lhe estouraram na testa. Sangrado o boi.

São Francisco abandonou suas roupas, mas não seu capital cultural.

O gado se revoltou uma vez. Foi na presença do cadáver de uma vaca. Reconheceram, cheiraram. As centenas de cabeças cheirando e gritando seu grito grave, que fazia o coração dos homens vibrar, e talvez a água. O touro, ao redor de todos, correndo em círculos, dolorido. Um comício circular, um protesto acompanhado pelo coro mais instintivo, a liderança periférica possível aos animais não castrados. Da política, um jovem aprendeu uma lição: não confrontar o gado com seu destino. As reses que se acreditem imortais.

Enterrar os mortos.

sábado, 22 de setembro de 2007

S: Como é importante dar queixa. Agora estão trocando a iluminação da 19 de Fevereiro.
A: Uma pessoa foi MORTA na 19 de Fevereiro. Acho que isso é um pouquinho mais importante...
S: E essa pessoa que foi morta, por acaso prestou queixa na delegacia? Eu aposto que não!

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

da inexperiência

tia,
você nunca pintou com um rolo, com toda essa vida que você já tem?

métrica zero

cara de dramaturga,
pinta de dramaturga,
bravo, bra-vo!

















Por Marcia Casturino.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Então, é como se fosse um compromisso, uma responsabilidade que você vai ter que firmar com o seu bumbum. Um pacto.

O passado é um vento que se esconde nos ossos
Prestidigita a chuva

O cansaço cruza de veia a veia
Pede cautela



São cinco poemas e alguns negritos que não existem, ok? E uma foto desfocada da despedida do Rio que eu mesma enviei para o Antonio Miranda, poeta que organiza todo aquele portal. Na original a Eliane estava do meu lado, também se escondendo atrás de um livro da implacável lente de Marcia Casturino, por isso o tremido.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

"modeuso"

não bastando terem domesticado o pobre animal, F. gosta de apertá-lo para ouvir seus miados.
"ai meu deuso", F. ventriloca, "como me aperta!".

F. acredita que o gato a chama de "deuso" em pensamento.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

ajuda

Enquete ao lado. Fecha segunda que vem.

para chegar aos 80 com braços

maravilhava as barrigas todas com os pães feitos em minha máquina.
até que, conversando com o T'ai Hu, mestre de kung fu, percebi que deveria amassá-los pessoalmente, fazendo a garra de tigre.
não usei mais a máquina para fazer pães.
e não fiz mais nenhum até agora.

lembrar de olhar longe. agora é exercício para os olhos. ainda amo o horizonte ou é só um traço identitário de que não posso abrir mão?

sábado, 15 de setembro de 2007

lavar roupa no tanque é um tipo de opressão de que só duas coisas libertam: a máquina de lavar e a prática de nudismo.

caderno listrado.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Desfragmentar

O que aconteceu: percebi que no Vaidades só me permitia observações amenas (na minha medida), só o bom humor, as carioquices engraçadas e os diálogos com a Gabizinha.
Percebi que não uso meus talentos literários como socióloga e militante. E não me exponho intelectualmente quando tenho que falar de literatura. Daí só fico no amor.
A sociologia foi como uma identidade secreta para eu não assumir o propósito tão ridículo, vindo daonde eu vim, de ser escritora.
Em minha outra função, em Curitiba, revisando livros de auto-ajuda, nunca sei se posso fazer piadas nas caixas de comentário da barra de revisão do Word para as outras revisoras lerem*. Essa divisão de tarefas em mim, essa apresentação esquizofrênica ao mundo, não fez com que uma tentativa de interpretação da vida deixasse de colaborar com a outra. Por isso vou tentando me assumir.
Um exemplo: as coisas que escrevia antes de estudar teoria feminista são diferentes do que o que veio depois. Meus contos até os 20 anos sempre tinham uma menina ou mulher transgressora, em alguma medida. Apareciam uns caras que exercitavam sua vaidade de um jeito que, embora não fossem castigados pelo que ocorria na história, o eram pela maneira como o texto os expunha. Com a teoria feminista, adquiri sutileza. E perdi meu motor para escrever contos.
Até os meus 20, eu dizia que era feminista para quem eu respeitava, não para todas as pessoas. Depois, na faculdade, não tive como escapar dos mais variados tipos de idiotas. Permaneço achando inútil conversar com eles, mas já não me parece mais tão doloroso. Então vou tentar transferir essa tranqüilidade para outros lugares.
Bem, isso tudo para que se entenda: devo colocar (quando entender como) minha monografia de graduação ali do lado, com todas as suas falhas apressadas. E vou colocar textos literários no blog (vai um abaixo). E as piadas e o que mais.

PEQUENA SEREIA

Se você fosse uma heroína, eu não te amava,
mas é tão boa, quando vê o que está errado
não suporta
e quer virar de costas

Pequena sereia, você não tem pernas
Quer correr para a vida, ao invés de estar
Ainda bem que não compôs seu canto
Será egoísmo me puxar ao fundo

Se sacrifica, mas sem uma causa
Teria força tua coluna tensa?

Pequena sereia de pés emprestados,
o que será você se não sorrir
enquanto valsa a lancinante dança?


*Esses livros parecem escritos pelo David Brent, do The Office. Claro que na maior parte do tempo reviso coisas muito mais interessantes, dissertações de sociologia, livros infantis, poesia até, contato comercial: sabrinablopes@gmail.com.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Sobre Os mortos na sala de jantar

Há muito tempo estou para começar este blog. Desde que o desleixado Vaidades foi linkado no da Marilia Kubota e eu percebi que isso me fazia sofrer.
Anteontem recebi um livro que me animou e vai ser o ponto de partida.
Os mortos na sala de jantar, de Ademir Demarchi, é um livro em que se pode encontrar várias pequenas coleções: cemitérios com suas ossadas de vivos e mortos, fatos, provérbios, ossos como fetiche histórico, bichos, ego, guerra (como as do XX, e, em vários trechos políticos, a guerra surda que se trava hoje como um jogo de xadrez).
Mas não é nelas que o livro se estrutura, e para mim ele assumiu uma organicidade se lido em seqüência. As descobertas de cada poema aprofundam os demais.
Como resenhas não me divertem, meus dentes retalham aqui alguns nacos para dar vontade:

meninos e meninas sentem náusea física da infância
vão perdendo com dor os belos dedos acesos pela luz
definham como a carga de uma bateria e vão morrendo
urrando luz com olhar de ovários arrancados
com tez iluminada de azul celeste
angelicalmente estáticos e passivos
como se assistissem a tevê no domingo em preto e branco (p.40)

os vivos na véspera eterna e plena
cavam o vazio repudiando o ocre odor (p.54)

amplos campos
que foram de guerra
agora com os ossos
se ara a terra (p.71)

como o homem
as formigas cortadeiras
trabalham sem parar

alimentam-se da paisagem (p.79)

o útero que o fiou
agora às costas
é uma pena inútil
pela qual não se chora (p.83)

a solidão suprema do inverno, maringá

todos tentando preencher o vazio que ficou da floresta

nas ruas nuas o grito terrificante de vida
prometido pelos ipês roxos e amarelos na primavera (p.113)

E dois poemas inteiros:

RÉQUIEM K626

pianos soltos nos cemitérios vazios
túmulos teclados como prédios diminutos
às margens do deserto de minúsculas ruas
apenas as folhas se movem quase imperceptíveis
sombras e vultos imóveis, pés à beira do abismo (59)


PIANO AO CAIR DA TARDE

as teclas de marfim
ainda sanguíneas
ecoam pelos dedos
a vida sensível dos elefantes
caminhando sua passividade elegante pela relva (p.91)


***

sobre os mortos
Difícil aceitar o “morreu, descansou”. Quanto mais lenta a morte, mais se lutou e mais se morre puto. Proponho deixar o “descansou” apenas para suicidas.

antes

antes em www.vaidades.blogspot.com